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Diogo Schelp

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Novo relatório para Conitec mantém rejeição a remédios do kit covid

Marcelo Queiroga, ministro da saúde - Wilson Dias/Agência Brasil
Marcelo Queiroga, ministro da saúde Imagem: Wilson Dias/Agência Brasil
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

20/10/2021 12h02

O novo relatório com diretrizes para tratamento ambulatorial de covid-19 apresentado ao Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), órgão consultivo do Ministério da Saúde, mantém o entendimento de que não existem medicamentos específicos recomendados para pacientes não hospitalizados, em estágio inicial ou leve da doença — rejeitando, portanto, também aqueles que compõem o chamado "kit covid", como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina.

O texto foi entregue aos integrantes da Conitec na sexta-feira passada (15) e a reunião para apreciação e aprovação das diretrizes está marcada para esta quinta-feira (21).

A discussão do relatório, que foi elaborado por um painel com mais de duas dezenas de especialistas brasileiros em reuniões semanais desde junho deste ano, a pedido do ministro Marcelo Queiroga, da Saúde, deveria ter ocorrido no plenário da Conitec no dia 7 deste mês, mas foi adiada depois que esta coluna divulgou suas conclusões em primeira mão, suscitando descontentamento no Palácio do Planalto.

O presidente Jair Bolsonaro, conforme atestam suas declarações públicas e detalhes levantados pela CPI da Covid no Senado, sempre foi um defensor desses medicamentos sem eficácia ou sem comprovação contra covid-19.

Segundo o coordenador do painel, o pneumologista Carlos Carvalho, a decisão de retirar o relatório da pauta da reunião da Conitec naquela ocasião foi dele e tinha como objetivo incorporar novos estudos publicados após o fechamento do texto.

O novo relatório contém poucas diferenças em relação ao original. A maior alteração se refere à redação do trecho que trata dos anticorpos monoclonais, um tratamento caro mas que se mostrou promissor em alguns estudos, especialmente para pacientes não vacinados e de alto risco de progressão para estágios graves da doença.

O novo texto, segundo apurou esta coluna, mantém o entendimento de que os anticorpos monoclonais não devem ser indicados para uso de rotina no tratamento de pacientes ambulatoriais com covid-19, especialmente por seu custo elevado.

Mas sugere à Conitec a reavaliação da incorporação dos anticorpos monoclonais "à luz do cenário atual, contextualizando a evidência com questões relacionadas a custos, viabilidade de implantação, equidade e acesso".

Se incorporados, os anticorpos monoclonais, que são cópias sintéticas de anticorpos produzidos naturalmente pelo organismo humano, devem ser administrados nos primeiros três dias de sintomas e podem ser considerados para pacientes não vacinados ou de risco alto, como idosos, hipertensos, obesos, etc.

Em relação à hidroxicloroquina, à cloroquina e à azitromicina, não houve mudanças: esses medicamentos não são recomendados pois, segundo o relatório, as "evidências não mostram benefício clínico". Ou seja, já está comprovado que eles não são eficazes contra a covid-19.

A ivermectina, assim como outros seis tratamentos analisados pelo painel de especialistas, tampouco foi recomendada, nesse caso por "evidências ausentes ou insuficientes".

Se o relatório for aprovado, será um reconhecimento oficial de que ainda não existe "tratamento precoce" para covid-19. Caberá então ao ministro Queiroga submeter essas diretrizes ao sistema público de saúde ou virar as costas para a ciência.