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Diogo Schelp


Uip ter usado ou não cloroquina nada diz sobre eficácia do remédio

Covid-19: médico David Uip se cura e volta ao Centro de Contingência na 2ª - Keiny Andrade/Folhapress
Covid-19: médico David Uip se cura e volta ao Centro de Contingência na 2ª Imagem: Keiny Andrade/Folhapress
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

07/04/2020 13h53

Apesar de os estudos preliminares sobre o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento de covid-19 serem ainda muito frágeis, a ciência — inclusive a brasileira — não está descartando essa opção de cura. Ensaios clínicos estão sendo feitos em cerca de 70 instituições de saúde no Brasil. "Talvez em um ou dois meses seja possível apresentar o resultado sobre o medicamento ser eficaz ou não", disse-me o infectologista e epidemiologista Carlos Magno Fortaleza, que iniciou os testes na Hospital das Clínicas da Unesp, em Botucatu. Para a ciência, isso é um tempo bastante curto.

O infectologista David Uip, coordenador do Centro de Contingência de Coronavírus no estado de São Paulo, contraiu a doença e se curou. Questionado se usou cloroquina, não respondeu. Mesmo que a resposta fosse sim, isso não diria absolutamente nada sobre a eficácia do medicamento. Para isso, é preciso ministrá-lo a um grande número de pacientes, em um ensaio clínico randomizado, com três grupos em teste: o dos pacientes que receberão a droga, o dos que serão medicados com placebo e o dos que não receberão nenhum dos dois.

Saber se Uip tomou ou não o remédio não prova nada. A informação serve apenas vai ser usada politicamente e para conclusões precipitadas. Se tomou, é possível que ele tenha melhorado por causa do remédio, mas é possível também que teria se curado de qualquer jeito — com ou sem hidroxicloroquina ou cloroquina. Ainda não é possível saber, só daqui a um ou dois meses.

Mas o uso político do paciente Uip já está acontecendo. E, por esse motivo, ele precisará dar algumas respostas. Uma delas é saber se Uip foi voluntário no ensaio clínico com cloroquina (e nesse caso não seria possível saber se ele recebeu o remédio ou um placebo) ou se tomou a cloroquina fora do escopo do estudo, na esperança de ter escolhido a bala mágica correta para ser curado.

Cloroquina pode ser a resposta para cura? Pode, assim como outros medicamentos que estão sendo testados. Mas politizá-la não ajuda em nada.

Diogo Schelp