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Diogo Schelp


Os inquéritos de Moraes e a 'mídia a favor' de Bolsonaro

                                 Integrantes do "300 do Brasil" atacaram STF na noite do último sábado, 13, com fogos de artifício                              -                                 REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS
Integrantes do "300 do Brasil" atacaram STF na noite do último sábado, 13, com fogos de artifício Imagem: REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

16/06/2020 15h23

Quem financia a máquina de produção de notícias fraudulentas que miram desafetos do governo de Jair Bolsonaro, inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal (STF)? Quem financia os recorrentes e, por vezes, violentos protestos contra as instituições democráticas? As ações desta terça-feira (16) e de 27 de maio da Polícia Federal, que cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços de aliados do presidente e de blogueiros e influenciadores bolsonaristas, foram feitas no âmbito de dois inquéritos correlatos que procuram responder a essas perguntas. É possível que a resposta seja uma só.

Ambos os inquéritos estão a cargo do ministro do STF Alexandre de Moraes: o que investiga as fake news e o que apura possíveis crimes contra a Segurança Nacional em protestos bolsonaristas, como os ataques à sede do STF com fogos de artifício, no sábado (13). O primeiro ganhou corpo por iniciativa do próprio STF, o que gerou enorme polêmica em torno de sua legalidade. O segundo foi aberto a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Questões jurídicas à parte, é interessante observar como Bolsonaro reagiu à operação da PF de três semanas atrás e como seus filhos vêm pressionando para que ele defenda a ala olavista do governo, na qual se inclui o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que foi incluído entre os investigados no inquérito de fake news.

Disse Bolsonaro sobre as operações de busca e apreensão determinadas por Alexandre de Moraes no dia 27 de maio: "Querem tirar a mídia que eu tenho a meu favor sob o argumento mentiroso de fake news."

A estratégia do olavismo (seita ideológica do astrólogo Olavo de Carvalho, que mora nos Estados Unidos) é essa: destruir a imprensa profissional e fortalecer fontes "alternativas" de notícias, eufemismo para sites, blogs, vlogs e perfis em redes sociais dedicados a difundir apenas conteúdo bajulador sobre o governo Bolsonaro e a detratar seus inimigos.

A "mídia a favor" que Bolsonaro e olavistas tanto almejam é uma reedição sem erudição da imprensa que vigorava no início da Primeira República, mais de um século atrás, quando páginas de jornais e revistas eram usadas por literatos para se cacifar com o intuito de solicitar e obter favores de poderosos.

Esse contexto histórico é descrito com cores vivas no recém-lançado livro Toma lá, dá cá (Editora Ornitorrinco, disponível em versão digital na Amazon por R$ 9,90), de Maurício Oliveira. Autor de dezenove livros, entre os quais "Garibaldi, Herói de Dois Mundos" e "Amores Proibidos na História do Brasil" (Editora Contexto), o jornalista Maurício Oliveira dedica-se em sua mais recente obra a contar como o diplomata e historiador pernambucano Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) usou sua precoce atuação jornalística, na transição da monarquia para a República, para ascender profissionalmente.

Trata-se de leitura das mais prazerosas e muito instrutiva para compreender como um ambiente jornalístico com baixo grau de profissionalização e autonomia é prejudicial a um sistema político que se pretende republicano.

"Nesse período imediatamente posterior à troca de sistema de governo, em que toda a estrutura de poder estava sendo reacomodada, práticas como a adulação e o compadrio mediaram as relações e institucionalizaram-se como estratégias de ascensão social", escreve Maurício Oliveira. Foi com essas práticas que o diplomata Oliveira Lima cavou um cargo no Itamaraty, aos 22 anos, e uma vaga na recém-criada Academia Brasileira de Letras, aos 29 anos, em detrimento do Barão do Rio Branco (que tinha 59 anos e só foi aceito no ano seguinte).

Tendo servido na representação brasileira em Washington, nos Estados Unidos, Oliveira Lima tornou-se em determinada fase de sua vida um convicto defensor "de que uma política de boa vizinhança submissa" com o país do Norte "seria o melhor caminho para o Brasil" — e nisso estava alinhado com a política externa brasileira de então, segundo relata o autor.

Quando, porém, mais tarde, o diplomata passou a buscar maior independência e crueza nas opiniões que expressava na imprensa, contrariando "os interesses do governo ao qual servia" e batendo de frente com seu chefe, o Barão do Rio Branco, principalmente por meio de artigos no jornal O Estado de S.Paulo, Oliveira Lima acabou prejudicando seu prestígio nos círculos do poder.

Mais de 100 anos depois, em um momento em que o governo que prometeu acabar com a "velha política" se rende ao toma lá, dá cá com os partidos fisiológicos do Centrão do Congresso Nacional, é interessante pensar como a troca de favores se encaixa em um contexto de "mídia a favor", para usar as palavras do presidente Bolsonaro.

Fica muito clara a razão do desejo maldisfarçado de destruir a imprensa profissional e fazer emergir um corpo de comunicadores dedicados à bajulação e à propagação de notícias fraudulentas. Quem os financia?

Diogo Schelp