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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Em Chapecó, Bolsonaro enaltece administração pública letal

Jair Bolsonaro durante visita a Chapecó (SC)   - Tarla Wolski/Colaboração para o UOL
Jair Bolsonaro durante visita a Chapecó (SC) Imagem: Tarla Wolski/Colaboração para o UOL
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

07/04/2021 13h03

Na falta de comprovação científica de suas crenças a respeito da pandemia e de como lidar com ela, o presidente Jair Bolsonaro elegeu uma cidade catarinense de 224.000 habitantes como modelo a ser seguido. O que ele aponta como exemplo, porém, é a política pública atuando a favor da morte.

Chapecó, no oeste de Santa Catarina, registrava no início de fevereiro menos de uma morte por dia, na média móvel dos 14 dias anteriores, segundo dados do Ministério da Saúde. O prefeito João Rodrigues (PSD) havia suspendido no início de janeiro as medidas restritivas em vigor desde o ano passado, colocadas em prática na gestão municipal anterior. A conta chegou: no dia 20 de fevereiro, a média havia sextuplicado. Foi então que o prefeito resolveu impor um "lockdown" parcial, com fechamento de comércio e outras atividades não essenciais.

Evidentemente, esse tipo de medida não tem efeito imediato. No início de março, a média de óbitos na média dos catorze dias anteriores chegou ao pico de 12 por dia. Nesse momento, Rodrigues concluiu que as medidas para promover o isolamento social não estavam funcionando e suspendeu-as.

O número de óbitos e de novos casos, no entanto, estavam caindo. O período de isolamento social contribuiu para essa queda, mas também contou o fato de que, antes dele, as altas taxas de contaminação tiveram o efeito de provovar uma imunização acelerada de uma parcela significativa da população — porém, a um custo humano altíssimo. Outro fator para a redução no número de óbitos nas últimas semanas foi a vacinação da população mais idosa, que ocorreu justamente nesse período.

O infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Universidade Estadual Paulista, explica o impacto que a decisão do prefeito de Chapecó de relaxar as medidas de isolamento social entre janeiro e fevereiro teve no ciclo do vírus: "Quando se tem uma situação epidemiológica desastrosa, como aconteceu em Manaus e em Chapecó, com altas taxas de contaminação, muitas pessoas ficam infectadas ao mesmo tempo, o que expõe grande parte da população ao vírus, mas também leva ao colapso do sistema de saúde. Essa exposição descontrolada ao vírus resulta em uma imunidade de rebanho transitória. Ou seja, quem entrou em contato com o vírus e não morreu está temporariamente imune. Mas isso acontece a um custo humano altíssimo."

De fato, por conta da política adotada pelo prefeito, Chapecó registra uma taxa de mortalidade por covid-19 maior do que a média nacional ou mesmo do que a média catarinense. São 245 mortos por 100.000 habitantes em Chapecó, em comparação com 160 por 100.000 no Brasil como um todo e 161 por 100.000 em Santa Catarina.

Todos esses dados são omitidos pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo prefeito de Chapecó quando alardeiam o suposto sucesso na gestão da pandemia no município. E fazem crer, erroneamente, que a queda no número de óbitos se deve à prescrição de remédios que, segundo consenso científico, não têm eficácia contra a covid-19.

Em entrevista à rádio Jovem Pan News no início de março, quando anunciou sua intenção de suspender as medidas de restrição, como o fechamento do comércio, Rodrigues revelou sua crença na ideia esdrúxula de que o novo coronavírus mata mais quando as pessoas ficam em casa.

"Você tranca o vírus dentro de casa. Se ficar, de fato, em lockdown verdadeiro, vai matar muita gente preso dentro de casa. Sou contra lockdown, mas não vale minha opinião, ouvi a ciência e permaneci catorze dias fechado, porque o vírus transita em catorze dias. Se em catorze dias não parou, não vai parar nos próximos catorze", disse Rodrigues.

As pessoas não se infectam ou morrem mais quando ficam em casa. É o contrário: por ser um vírus transmitido no contato próximo entre os indivíduos, é o convívio social e as aglomerações que favorecem a transmissão e, por consequência, as mortes.

Rodrigues também não "ouviu" a ciência direito quanto à efetividade das medidas de restrições. Se tivesse escutado, saberia que o impacto no número de internações e mortes não se faz sentir em um prazo tão curto de tempo.

"Os óbitos em Chapecó caíram por um combinação de imunidade coletiva adquirida a um alto custo humano, de medidas de isolamento e de vacinação dos idosos, mas agora estão tentando atribuir o fenômeno ao chamado 'kit covid' de medicamentos sem eficácia", diz o infectologista Naime Barbosa. "Trata-se de uma falácia."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL