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Diogo Schelp

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Em CPI, presidente da Anvisa vai contra falas de Bolsonaro sobre vacinas

Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

11/05/2021 12h17

Em depoimento que pode ser qualificado como "sincero" à CPI da Covid no Senado, o diretor presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, se disse contrário às declarações feitas pelo presidente Jair Bolsonaro nos últimos meses que questionaram a eficácia e segurança de vacinas contra covid-19.

Torres também confirmou que rechaçou uma proposta, feita em reunião no Palácio do Planalto no ano passado, de incluir na bula da hidroxicloroquina a recomendação para tratamento da doença causada pelo novo coronavírus. A proposta foi revelada pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta em seu depoimento, realizado na semana passada.

Ao ser questionado pelo senador Renan Calheiros, relator da CPI, sobre qual seria o impacto na pandemia das declarações de Bolsonaro contrárias à vacinação em massa contra covid-19, Barra Torres, que foi indicado ao cargo em 2019 pelo presidente, disse claramente que as falas citadas na pergunta "vão contra o que nós temos preconizado sobre vacinação".

"Temos, sim, que nos vacinar", disse Barra Torres, acrescentando que a "população não deve se orientar por essas falas".

No entanto, ele afirmou que não houve nenhum tipo de interferência ou pressão do governo para que a Anvisa não aprovasse o uso emergencial da CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan, do governo paulista, e desenvolvida por laboratório chinês.

Em um dos pontos mais importantes do seu depoimento, Barra Torres confirmou a revelação feita por Mandetta de que participou no ano passado de uma reunião no Palácio do Planalto com outros ministros e com médicos em que se discutiu a proposta de mudar a bula da hidroxicloroquina para incluir recomendação do uso do medicamento no tratamento de covid-19.

Barra Torres disse que a proposta foi feita pela oncologista Nise Yamaguchi, uma defensora entusiasmada da hidroxicloroquina, que participou da reunião na companhia de outro médico que ele não soube identificar.

O presidente da Anvisa disse até que teve uma "reação brusca" diante da proposta da médica, rechaçando a possibilidade de fazer a mudança e explicando que só quem pode alterar a bula é a Anvisa mediante pedido de laboratório que fabrica o medicamento e somente após apresentação de estudos clínicos robustos comprovando a eficácia para aquele fim.

Barra Torres afirmou, também, que até o presente momento não existem estudos que apontem a eficácia da hidroxicloroquina contra covid-19 e que um ensaio clínico sobre o uso do medicamento em casos leves, chamado Coalizão V, está sendo realizado no Brasil, com previsão para ser concluído em julho.

Tratamento precoce contra covid-19, disse o presidente da Anvisa, resume-se a testagem precoce e combater os sintomas.