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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Decisão judicial fortalece narrativas eleitorais de Lula e Bolsonaro

Ex-presidente Lula e o atual presidente, Jair Bolsonaro - Foto: Agência Brasil/Marcello Casal Jr.
Ex-presidente Lula e o atual presidente, Jair Bolsonaro Imagem: Foto: Agência Brasil/Marcello Casal Jr.
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

22/08/2021 17h29Atualizada em 22/08/2021 17h32

A decisão da Justiça Federal em Brasília que rejeitou a denúncia contra o ex-presidente Lula no caso do sítio de Atibaia (SP) não entra no mérito se ele é inocente ou não, apenas sustenta-se em questões processuais, como o fato de os procuradores não terem readequado a peça acusatória aos entendimentos recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a atuação do ex-juiz Sergio Moro e sobre a competência da Vara de Curitiba. Em resumo, o Ministério Público Federal não poderia ter incluído na nova denúncia provas que foram invalidadas por terem sido colhidas quando Moro cuidava do caso.

Detalhes à parte, a defesa de Lula logo tratou de anunciar que a decisão prova que o seu cliente foi vítima de perseguição política. Essa é a narrativa que o petista vem adotando desde antes de ser preso, em 2018, e que é reforçada a cada vitória na Justiça — mesmo que em nenhuma delas se discuta o mérito se ele é inocente ou não dos crimes que lhe foram imputados. Para efeitos políticos e eleitorais, isso pouco importa.

Decisões judiciais como essa, que aos poucos vão confirmando a reversão das condenações de Lula por corrupção e lavagem de dinheiro, também servem à narrativa bolsonarista de que há um conluio na Justiça para beneficiar Lula e prejudicar o presidente Jair Bolsonaro, com o objetivo de permitir a volta do PT ao poder.

Como sempre, as coisas são bem mais complicadas do que se tenta vender nessas duas narrativas.

A primeira tenta passar por cima da imensidão de provas colhidas sobre a existência do Petrolão, dos bilhões de reais desviados e recuperados e das inúmeras delações, como se Justiça, procuradores e policiais federais tivessem inventado tudo só para perseguir Lula e o PT (apesar de outros políticos e partidos também terem sido afetados).

A segunda ignora os esforços do próprio governo Bolsonaro para esvaziar a Operação Lava Jato, desmantelar mecanismos importantes de investigação de corrupção e desmoralizar o ex-juiz Sergio Moro e procuradores da República.

Cada um a seu modo, com argumentos contrários, Lula e Bolsonaro adotarão em 2022 narrativas eleitorais que os apresentam como vítimas da Justiça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL