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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A “missão ingrata” do 12 de setembro em diante

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

11/09/2021 21h10

"Temos de acreditar na boa-fé de Bolsonaro", disse Gilmar Mendes, depois da amarelada epistolar do presidente da República, que atribuiu ao "calor do momento" as ameaças golpistas dos atos de 7 de setembro e os ataques contra Alexandre de Moraes, com quem conversou no telefone, sob intermediação de Michel Temer.

"O difícil é acreditar na boa-fé do Gilmar Mendes", comentou o senador Alessandro Vieira, aprovado pelo Cidadania como pré-candidato para a eleição presidencial de 2022.

Para quem vive na primeira realidade, não há qualquer novidade em Dom Bolsonaro del Centrão oscilar entre o golpismo e o conchavo, entre a fantasia de valente e o pavor da cadeia, sempre contando com sua claque para justificar às massas de manobra cada contraste entre retórica e prática como uma tática genial do "mito" em seu xadrez 4D.

A novidade é um pré-candidato disposto a desmascarar tanto o presidente quanto o decano do STF, além de depoentes da CPI da Pandemia, base governista e claque.

Em live do movimento Vem Pra Rua, seu aliado no ato de 12 de setembro pelo impeachment, Vieira fez o que chamou de "cronologia do desastre" do governo:

"No primeiro semestre de 2019, logo depois das eleições de 2018, com aquela mudança toda que se esperava, você não escutava a voz de um Arthur Lira, de um Ciro Nogueira. Essa turma toda desapareceu. Eles passaram bastante tempo escondidos, esperando para ver se era verdade tudo aquilo que tinha sido falado nas campanhas, se ia mudar mesmo. E, quando eles percebem que não ia mudar nada, que, pelo contrário, eles teriam mais espaço, aí eles voltam a ter um protagonismo cada vez maior."

"O governo Bolsonaro fortaleceu e expandiu um mecanismo chamado emenda de relator", prosseguiu o pré-candidato, citando sua ação no Supremo contra essa manobra. "Essa emenda de relator permite o orçamento secreto. Você tem uma transferência na casa dos 37 bilhões de reais para que congressistas possam manipular essa verba, sem que você, cidadão, saiba quem pediu, por que aquele dinheiro foi enviado e como foi (aplicado). Esse conjunto de ações dá uma força muito grande a esses parlamentares que coordenam a distribuição do dinheiro. Então o dinheiro que hoje o governo Bolsonaro joga no Congresso para ter uma base parlamentar é duas vezes maior do que a Dilma utilizava. Duas vezes maior. E isso proporciona força para um cara como Arthur Lira. A história do Arthur Lira mostra claramente que ele não vai largar essa carcaça enquanto tiver um pedaço de carne. Ou enquanto ele tiver a expectativa de continuar impune."

Sobre o suposto recuo de Bolsonaro, Vieira comentou:

"Amanhã ele vai estar xingando alguém e vai estar fazendo tudo de novo, porque o Bolsonaro é isso. Mas o que tem que chamar a atenção das pessoas é o sistema que está por trás. Bolsonaro é só uma pecinha nesse sistema. É um cidadão de carreira ridícula parlamentar. Nunca presidiu comissão, nunca teve projeto relevante, nunca fez relatório relevante. Ridículo. Surfou uma onda, aproveitou um momento. No governo, ocupou-se apenas de proteger a si, sua família e seus apadrinhados. Então você tem gente hoje ganhando salários de 200, 240 mil reais em estatais. [O presidente] Permitiu a duplicidade de pagamento para militares da reserva que estão em cargos civis. E hoje nós temos mais militares em cargos civis do que tínhamos na época da ditadura militar. Criou mais ministérios para dar ao Centrão. Entregou a função praticamente de primeiro-ministro para o Ciro Nogueira, que um ano antes chamava ele de fascista louco. E que fez campanha com Lula e que vai fazer de novo. O que interessa para essa turma não é ideologia, é o acesso ao poder. Então essa é a cronologia do desastre."

Vieira também ironizou o papel dos propagandistas do governo e chamou a atenção para a falta de moralidade dos Bolsonaro:

"O presidente não falou o que ele falou, não foi bem isso que ele quer dizer. Parece que tem a tecla SAP. O presidente fala uma bobagem e tem sempre um ministro para dizer que ele queria dizer outra coisa. Mas daqui a pouco ele vai para o cercadinho e fala tudo de novo. E o pior: não só fala, faz. Continua produzindo desinformação para os brasileiros, sem projeto de saúde, de educação, de resgate da economia, e sem o mínimo padrão moral. É a luta do poder pelo poder. E o poder pelo dinheiro. A gente aqui está numa posição superprivilegiada, tem 25 milhões de brasileiros que não sabem se vão comer. E esses caras não estão nem aí. Eles estão preocupados em ver qual vai ser a próxima mansão da família. Porque o 04 tem uma agora, o 01 já tinha..."

Para o pré-candidato, "a gente vai ter que enfrentar essas questões" até 2022. "A gente vai ter que tirar essas máscaras. A máquina de mentiras das redes sociais dificulta muito, porque tem muito brasileiro honesto que continua achando que Bolsonaro também é um cara honesto e bem-intencionado. A gente tem a missão ingrata de tirar esse sonho dessa pessoa. Mostrar a desilusão: 'olha, infelizmente, você está acreditando, mas não é a verdade.' A verdade está aqui gritando na sua frente. É um desafio muito grande. O Brasil sofre muito pela má qualidade dos seus representantes."

O representante Vieira, pelo menos, entende que a "missão ingrata" do momento, exercida nesta coluna, é tirar os brasileiros da oscilação suicida entre a segunda realidade onírica e a complacência com os crimes cometidos na primeira.

Independentemente de seu tamanho, a manifestação de 12 de setembro é um esforço inicial de união coletiva contra os mundos da fantasia e da impunidade, um usado para acobertar o outro. Para reformar o Brasil, é preciso perder de vez a boa-fé no conchavo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL