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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os mercenários da dúvida sobre a vacinação

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

18/09/2021 19h03

"Para que médicos, cientistas e profissionais de saúde pública sejam eficazes no combate a iniciativas como o GBD, será absolutamente crucial perceberem que não estão lidando com um debate científico ortodoxo baseado em dados e evidências sólidas, mas com uma sofisticada e bem financiada campanha de negação da ciência baseada em interesses ideológicos e corporativos."

O alerta, na linha frequente desta coluna, está no artigo "Covid-19 e os comerciantes da dúvida", de Gavin Yamey, professor de saúde global e políticas públicas na Duke University, e David H. Gorski, cirurgião oncológico e professor da Escola de Medicina da Wayne State University, ambas nos Estados Unidos.

GBD são as iniciais de Great Barrington Declaration, manifesto batizado com o nome de uma vila do estado americano de Massachusetts e lançado em 8 de outubro de 2020 em defesa da imunidade de rebanho, exceto para idosos e doentes.

Contestado, por exemplo, pelo professor e chefe do Departamento de Medicina da Queens' University, Stephen L. Archer, que refutou cinco falácias no texto, e pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que o chamou de "farsa", o manifesto foi patrocinado pelo Instituto Americano de Pesquisa Econômica (AIER, na sigla em inglês), "um think tank libertário" cujo braço investidor administra um fundo privado avaliado em quase 284,5 milhões de dólares, com participações em empresas de combustíveis fósseis e de uma gigante do tabaco, segundo Yamey e Gorski.

O AIER também faz parte de uma rede de organizações fundada por Charles Koch, um bilionário que se opõe a medidas de saúde pública usadas para conter a disseminação da Covid-19. Curiosamente, bolsistas do AIER tiveram contas suspensas em redes sociais por espalharem desinformação na pandemia, como a de vacinas serem uma "plataforma de software que pode receber uploads", um dos vários exemplos citados no artigo.

"O GBD influenciou a gestão da Covid-19 em ambos os lados do Atlântico", afirmam Yamey e Gorski, detalhando reuniões de uma coautora do manifesto, Sunetra Gupta, com os governos de Boris Johnson e Donald Trump, bem como o atraso e as infecções extras decorrentes dessa má influência na gestão britânica da crise sanitária.

Gupta também recebeu quase 90 mil libras da Fundação Georg e Emily von Opel, sendo Georg von Opel o bisneto bilionário de Adam Opel, fundador da montadora alemã que leva o sobrenome familiar. Mensagens de abril de 2020 mostraram que Gupta mantinha Georg informado de seus esforços contra medidas restritivas, em nome da economia.

O australiano Stephan Lewandowsky, diretor de psicologia cognitiva na Universidade de Bristol, ainda observou apoio ao GBD "entre bots nas redes sociais, o que, segundo o Grupo de Pesquisa de Desinformação da Federação de Cientistas Americanos, 'indica que a conversa é manipulada e inorgânica em comparação com a conversa baseada em consenso científico que se opõe às teorias de imunidade de rebanho'".

No Brasil, claro, a farsa dos comerciantes de dúvida se repete como um circo macabro.

A claque bolsonarista, remunerada por empresários da comunicação abastecidos com verbas e demais vantagens federais, explorou tanto as teorias conspiratórias do movimento antivacina internacional que seu ouvinte Jair Bolsonaro manifestou "um sentimento" ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que então suspendeu a vacinação de adolescentes no país, distorcendo em nota e coletiva as posições da OMS e do Reino Unido sobre o tema, atropelando a recomendação da Anvisa e gerando revolta entre médicos, cientistas, governadores, prefeitos e secretários de Saúde, além de desconfiança e preocupação infundadas de pais e filhos com "eventos adversos", citados de modo rasteiro, sem provas de causalidade. O único caso de óbito entre 3,5 milhões de vacinados da faixa etária logo se revelou desprovido de relação com a vacina.

Como escreveu Yamey no Twitter: "Vou continuar a argumentar que os benefícios da vacinação superam em muito os pequenos riscos. O que está acontecendo é anticientífico e assustador. Se eu tivesse um adolescente, gostaria que ele fosse vacinado. Se a vacina for considerada segura e eficaz em crianças mais novas, vacinaremos as de 5 anos. Nada do que escrevi pode ser visto como 'extremo'. Chegamos a um ponto em que o apoio à vacinação leva a ser chamado de nazista ou de "Mengele ['médico' de Auschwitz] fazendo experiências com crianças judias antes de serem mortas com gás. A vacinação é a nossa saída desta pandemia."

Na falta de confronto retórico com o STF após a amarelada do presidente para Alexandre de Moraes, porém, a confusão causada pela retomada das tentativas de minar a credibilidade da imunização lançou uma cortina de fumaça sobre o escândalo da Prevent Senior, que, de acordo com material obtido pela CPI da Pandemia, ocultou mortes em estudo sobre cloroquina, realizado sem informação aos pacientes nem autorização de órgãos competentes, mas propagandeado pelos Bolsonaro como exemplo de sucesso do medicamento, que turbinou lucros de um fabricante aliado.

O resgate de um vídeo de maio de 2020 ainda reforçou o vínculo entre a operadora de saúde e o governo: "Existe um entendimento muito interessante entre a Prevent Senior e o governo federal brasileiro e todas essas informações estão sendo compartilhadas", diz o virologista Paulo Zanoto, do chamado "gabinete paralelo" bolsonarista, em conversa com o diretor-executivo da operadora, Pedro Batista Jr.

Assim como fez na investigação da aquisição bilionária da Covaxin, que rendeu o cancelamento do pagamento antecipado de mais de 200 milhões de reais em paraíso fiscal e depoimentos constrangedores de todo um elenco de lobistas, supostos executivos e sócio oculto de banco fiador que não é banco, além de busca e apreensão na intermediária Precisa Medicamentos, a CPI e o jornalismo têm de seguir o dinheiro até o fim, como fazem Yamey e Gorski, para ao menos expor a sofisticada e bem financiada campanha de negação da ciência baseada em interesses eleitorais, ideológicos e corporativos.

Não estamos lidando com um debate científico ortodoxo baseado em dados e evidências sólidas, mas com a fabricação de uma segunda realidade por reacionários aloprados e oportunistas maquiavélicos que, plantando dúvidas e imunizando massas de manobra contra a verdade, arriscam e comprometem a vida alheia na primeira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL