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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonarismo x cristianismo

Jair Bolsonaro discursa na 76ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) - Eduardo Munoz-Pool/Getty Images
Jair Bolsonaro discursa na 76ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) Imagem: Eduardo Munoz-Pool/Getty Images
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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

24/09/2021 11h09

"Por que é que a verdade gera o ódio?"

A pergunta é feita pelo teólogo cristão Santo Agostinho (354-430) em suas Confissões, a partir da premissa expressa séculos antes pelo dramaturgo e poeta romano Terêncio (185 a.C.-159 a.C.) em sua comédia Andria, segundo a qual a complacência (ou, a depender da tradução, o obséquio, o favor) gera amigos; a verdade (ou a franqueza), ódio.

Antes de formular a questão, Santo Agostinho relata que pergunta a todos se preferem encontrar a alegria na verdade ou na falsidade, ao que todos são categóricos em afirmar que a preferem na verdade. Também conta ter encontrado "muitos com desejo de enganar outros", mas "ninguém que quisesse ser enganado", ao menos não declaradamente; de modo que reflete, depois, sobre a natureza do autoengano.

"Por que é que os homens têm como inimigo aquele que prega a verdade, se amam a vida feliz que não é mais que a alegria vinda da verdade? Talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam seja verdade. Como não querem ser enganados, não se querem convencer de que estão em erro. Assim, odeiam a verdade, por causa do que amam em vez da verdade."

Jair Bolsonaro, por exemplo, demonstrou até na Assembleia-Geral da ONU em Nova York o seu amor pela realidade paralela que fabricou com seus filhos e sua claque complacente e obsequiosa. Nela, ele é "um presidente que acredita em Deus", "valoriza a família", "deve lealdade a seu povo", protagonizou "a maior manifestação de nossa história", "sempre" defendeu "combater o vírus" da Covid-19, deixou o país "sem qualquer caso concreto de corrupção" e "recuperou a credibilidade externa", sendo "a inflação, em especial, nos gêneros alimentícios" um "legado" não da alta do dólar, mas das "medidas de isolamento" decretadas por governadores e prefeitos.

De tanto amar esse "Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões", Bolsonaro quer que ele seja verdade e tem como inimigo quem mostra o Brasil real e a realidade de seu governo e sua família.

"Muitas [das pessoas que morreram na pandemia] tinham alguma comorbidade, então a Covid apenas encurtou a vida delas por alguns dias ou algumas semanas", disse, em entrevista a reacionários alemães, esse mesmo presidente, que, sem teleprompter, sempre confirma em palavras sua deslealdade ao povo, às famílias das vítimas e a Deus, cujo santo nome toma em vão, desrespeitando o segundo mandamento do cristianismo.

Pessoas com comorbidades podem viver até durante décadas com medicamentos eficazes para controlar suas doenças e com vacina contra qualquer vírus para o qual não haja remédio, mas a teoria perversa do "pé na cova", que teve origem na claque, é usada para minimizar perdas humanas, turbinadas pela omissão dolosa de socorro federal, já comprovada em CPI, comissão que agora esmiúça a ocultação de mortes por Covid-19 pela operadora Prevent Senior, cujo "estudo" turbinou o charlatanismo de Bolsonaro.

A única família que o presidente valoriza e tenta salvar, pelo visto, é a que hoje tem dois chefes de organização criminosa apontados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, Flávio e Carlos Bolsonaro, em razão de roubo do dinheiro do povo por meio de funcionários fantasmas. Um deles, André Siqueira Valle, estava registrado como "assessor" de Carluxo enquanto trabalhava em fábrica de autopeças em Resende, a cerca de três horas da Câmara de vereadores. Ele é o mesmo que esteve registrado no gabinete de Jair Bolsonaro, de onde, segundo sua irmã, foi exonerado por não repassar a vantagem indevida exigida pelo então deputado federal para permanecer no cargo. Tudo em absoluto contraste com o sétimo mandamento, "não furtarás".

O abolicionista e diplomata Joaquim Nabuco, que representou o Brasil no exterior muito melhor que Bolsonaro, escreveu em seus diários que "um gênio como Bacon pode ser venal e corrupto e, nesse caso, a inteligência serve para esconder, sofismar, defender, disfarçar o crime, o que é agravá-lo". O político e ensaísta inglês Francis Bacon foi acusado de corrupção em 1621, condenado ao pagamento de multa pesada e também proibido de exercer cargos públicos. Bolsonaro é o avesso de um gênio, de modo que a malícia bolsonarista para esconder, sofismar, defender e disfarçar crimes, o que é agravá-los, engana cada vez menos brasileiros.

Entre apoiadores não remunerados nem beneficiados com perdão de dívidas, sobram aqueles que também amam outra coisa - o "mito", a realidade paralela, o grupo dos amigos complacentes e obsequiosos - e que não se querem convencer de que estão em erro. Assim, odeiam a verdade, por causa do que amam em vez da verdade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL