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Fernanda Magnotta

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Às vésperas de encontro com Putin, relações EUA-Rússia pioram sob Biden

Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

03/06/2021 04h00

Desde a extinção da União Soviética em 1991, as relações entre Estados Unidos e Rússia têm sido marcadas, predominantemente, por tentativas frustradas de cooperação, e por políticas mútuas de contrabalanço de poder, por vezes assinaladas pela elevação do tom e por rompantes de agressividade entre as lideranças dos dois países.

Do lado norte-americano prevalece a leitura de que a Rússia persegue os seus interesses nacionais de forma unilateral e que busca desestabilizar o sistema internacional, dificultando o estabelecimento de relações que garantam alguma previsibilidade.

Nos últimos anos, especificamente, a relação deteriorou de forma vigorosa. Ainda durante a gestão Obama, em 2014, os Estados Unidos suspenderam a chamada "U.S.-Russia Bilateral Presidential Commission" e impuseram sanções contra Moscou. Isso ocorreu em resposta à ação russa na Ucrânia, que foi interpretada pelos norte-americanos como uma violação à soberania e integridade territorial daquele país.

Desde então, os Estados Unidos manifestam, com alguma regularidade, seu incômodo em relação à posição russa sobre esse e outros vizinhos, como é o caso da Geórgia, além do engajamento no Oriente Médio, na África e na América do Sul. Os norte-americanos, igualmente, acusam o Kremlin de "minar as instituições centrais do Ocidente, como a OTAN e a UE", além de "enfraquecer a fé no sistema democrático e de mercado livre". Na mesma linha, denunciam, sistematicamente, atos repressivos do governo Putin relativos ao cerceamento de direitos civis e políticos no país, especialmente contra opositores.

Em julho de 2017, durante uma visita a Varsóvia, na Polônia, Trump criticou a política russa na Ucrânia, na Síria e no Iraque. Em um emblemático discurso, falou sobre o seu compromisso em reforçar a "luta civilizacional pelo Ocidente" e, de maneira inédita, referiu-se à cláusula de defesa mútua da OTAN. No dia seguinte, já na Alemanha, reuniu-se, pela primeira vez com o presidente Putin. Nesse momento, ocorriam, nos Estados Unidos, investigações sobre a possível interferência russa nas eleições presidenciais de 2016.

No começo de 2018, o governo Trump divulgou diversos documentos que classificavam a Rússia como um dos principais concorrentes estratégicos dos Estados Unidos, especialmente em matéria de segurança e defesa. Meses depois, os dois presidentes voltaram a se encontrar, agora em Helsinque, na Finlândia, para uma reunião de pouco mais de duas horas a portas fechadas, que foi acompanhada por apenas dois tradutores.

Os detalhes desse encontro nunca foram revelados, mas logo após a sua realização, Trump levantou dúvidas sobre a conclusão das agências de inteligência dos Estados Unidos de que a Rússia teria influenciado no resultado da eleição de que foi vencedor. Em contraponto, chegou a afirmar, logo após retornar aos Estados Unidos, que as relações com a Rússia nunca haviam estado piores do que naquele momento.

Apesar de ter sido visto como um líder inclinado a proteger Putin, o governo Trump não arrefeceu o tom contra a Rússia. Em 2019, o então secretário de Estado Mike Pompeo anunciou a retirada formal dos Estados Unidos do "Intermediate-Range Nuclear Forces", um acordo de desarmamento firmado ainda durante a Guerra Fria. O anúncio ocorreu acompanhado da acusação de que o sistema de mísseis russos conhecido como 9M729 violaria os termos do tratado. Em 2020, os Estados Unidos também criticaram as emendas constitucionais aprovadas na Rússia, que autorizaram Putin a permanecer no poder até pelo menos 2036.

Com a chegada de 2021, havia a preocupação de que um dos acordos bilaterais mais importantes não fosse renovado. O START ("Strategic Arms Reduction Treaty"), voltado à redução de armas nucleares, expirava esse ano e a gestão Trump havia demonstrado pouca disposição para levá-lo adiante. Se, por um lado, a boa notícia para os russos foi, portanto, a extensão do chamado "New START" até 2026, por outro lado, isso não significou uma reversão da maior parte das práticas anteriores. Em termos simples, a escalada de tensão ganhou novo "momentum" desde que Biden chegou ao poder.

Nos primeiros dias no cargo, o democrata impôs mais sanções contra Moscou alegando que tratava-se de uma resposta a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016, a organização de cyber ataques contra agências governamentais norte-americanas, além da oferta de recompensas por ataques contra militares estadunidenses no Afeganistão. No meio tempo, diplomatas norte-americanos foram expulsos da Rússia. Além disso, Biden criticou Moscou pelo envenenamento e prisão do opositor Alexei Navalny. Após referir-se ao presidente Putin como "um assassino" durante uma entrevista, a Rússia classificou os Estados Unidos como "um país hostil".

Na última semana, os Estados Unidos formalizaram a intenção de retirada do "Treaty on Open Skies", outro acordo importante. A decisão foi criticada pela Rússia, que classificou a decisão como "um erro político". Essa determinação já havia sido anunciada por Trump, mas os russos acreditavam que Biden poderia revertê-la. Biden, no entanto, não só deixou de cumprir com essa expectativa, como acusou a Rússia de violar o pacto ao restringir sobrevoos norte-americanos na Geórgia e no litoral do Mar Báltico.

Em duas semanas, ocorrerá o primeiro encontro de cúpula entre Biden e Putin. Previsto para 16 de junho, em Genebra, a reunião terá lugar logo após o presidente norte-americano encontrar-se com aliados do G7, da OTAN e da União Europeia. Perguntado sobre as expectativas para o evento, o chanceler russo Sergey Lavrov disse ontem que "não devemos nos iludir" e que "não haverá avanço ou decisões históricas que levem a mudanças fundamentais".

O observador atento poderia ir ainda mais longe do que sugeriu Lavrov. Já não se trata de mapear o espaço para eventuais melhorias do relacionamento. Agora a questão é saber qual é a perspectiva de deterioração dessa relação. Afinal, como diria o ditado, "não há nada tão ruim que não possa piorar".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL