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Fernanda Magnotta

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

G7 e encontro Biden-Putin reforçam tese do "retorno da geopolítica"

Os presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden (à esq.), e da Rússia, Vladimir Putin, durante encontro bilateral em Genebra, na Suíça - Denis Balibouse/EFE
Os presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden (à esq.), e da Rússia, Vladimir Putin, durante encontro bilateral em Genebra, na Suíça Imagem: Denis Balibouse/EFE
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

17/06/2021 04h00

Em 2014, durante o auge da crise entre Rússia e Ucrânia, o professor norte-americano Walter Russell Mead publicou um artigo na revista Foreign Affairs defendendo a ideia de que viveríamos, neste século, o que chamou de "retorno da geopolítica".

O argumento de Mead tinha como ponto de partida a noção de que, muito embora a contemporaneidade possa ter trazido a sensação de que certos dilemas típicos das Relações Internacionais teriam se tornado antiquados, seria um equívoco ignorar o peso que a "política do poder" ainda desempenha nessa seara.

Segundo Mead, a reafirmação da ordem liberal pós Guerra Fria trouxe à tona um conjunto de novos temas dominantes para a agenda, deslocando os tradicionais debates de política externa para questões como desenvolvimento, comércio, promoção da democracia, defesa dos direitos humanos e mudança climática, por exemplo. Esse movimento teve conexão direta com a consolidação da hegemonia norte-americana nos anos 1990, e o conjunto de valores e crenças propagados pelos Estados Unidos e institucionalizados, a seguir, por meio de regimes e organizações internacionais.

Como consequência, passou a não ser do interesse das principais potências ocidentais concentrar-se em discussões da política internacional que envolvessem apenas questões militares, disputas fronteiriças ou esferas de influência. Esses temas passaram a ser, inclusive, convenientemente utilizados como forma de denunciar transgressões de países vistos como "ameaças" à estrutura de governança existente: da Rússia sobre a Crimeia, de China no além-mar, ou do Irã em relação à Síria e ao Hezbollah no Oriente Médio.

Alguns anos depois, em 2021, Mead não poderia ser mais atual: estamos tendo novos indícios de que serão justamente as rivalidades geopolíticas que desenharão os próximos anos da política internacional. Nesse novo contexto, o mais curioso é que esses sinais vêm precisamente da forma como os países lidam com os chamados desafios transnacionais: o terrorismo, a urgência climática ou mesmo a saúde global em face de uma pandemia.

Embora os "novos temas" sejam irreversíveis e estruturalmente complexos, eles parecem não ter trazido consigo novas formas de articulação. Ao contrário, fizeram reviver a urgência das antigas alianças e das conhecidas ações de contrabalanço de poder. Foi exatamente o que assistimos durante o recente encontro do G7, no Reino Unido, e, posteriormente, o que se pôde verificar no encontro de Cúpula entre Biden e Putin, na Suíça.

No primeiro caso, mais do que observar o que os líderes presentes pactuaram entre si, está a importância em entender a centralidade de países que mesmo sem participar do encontro, estiveram presentes o tempo todo: Rússia e China. No segundo caso, mais do que destrinchar aquilo que foi dito entre Biden e Putin, interessa jogar luz sobre o não dito: um conjunto de temas espinhosos que, ao serem tocados, inviabilizariam um encontro diplomático dessa natureza.

Toda ordem internacional reflete uma estrutura de poder. Ao ser mutável, a distribuição de capacidades afeta também os interesses e as preferências dos países, oferecendo oportunidades e/ou incentivos para que surjam atores revisionistas. Durante anos, os Estados Unidos e a Europa se ocuparam em neutralizar potências desestabilizadoras, seja por meio de políticas de contenção, seja por meio de ações de acomodação. Nos últimos anos, porém, players como Rússia e China, que nunca partilharam efetivamente do arranjo pós Guerra Fria, passaram a adotar condutas mais claramente contestadoras e a discutir abertamente os ditos "benefícios" da ordem existente.

Mead já falava, em 2014, que "a Rússia quer reunir o máximo possível da União Soviética" e que "a China não tem intenção de se contentar com um papel secundário nos assuntos globais, nem aceitará o atual grau de influência dos Estados Unidos na Ásia e o status quo territorial por lá". Tratam-se de interesses cujos movimentos serão difíceis de conciliar com as prioridades ocidentais.

Em 2021, portanto, são ainda mais explícitos os dois cardápios que se antagonizam diante dos nossos olhos: de um lado, Estados Unidos e Europa buscam forjar uma agenda pós-moderna pautada no livre mercado, na mudança climática e na segurança cibernética; de outro lado, potências como Rússia e China reforçam a premência de questões como não intervenção, integridade territorial e a consolidação de arranjos de poder regional. A disputa de menus está clara e promete ser tensa; resta saber quem prevalecerá e se, para nós, a refeição será indigesta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL