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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em discurso sobre Afeganistão, Biden transfere a culpa para a vítima

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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

16/08/2021 18h00

Não é novidade que os Estados Unidos tenham adotado, ao longo de sua história recente, políticas contraditórias no campo internacional. Após o fim da Guerra Fria, a inserção externa norte-americana dialoga com uma concepção de sistema internacional que varia entre a lógica da "superpotência solitária" e do "multilateralismo com liderança".

Como bem notou Bruce W. Jentleson, em um de seus livros, os Estados Unidos dividem a hierarquização do interesse nacional entre as dinâmicas de poder e paz versus o discurso da prosperidade e dos princípios, e adotam estratégias que vão do unilateralismo à formação de coalizões - um comportamento que tem provocado olhares desconfiados sobre o país e levado a questionamentos recorrentes sobre as limitações do poderio norte-americano.

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001 paira a questão sobre até que ponto seria vantajoso aos norte-americanos agirem com base na ação unilateral, na mesma medida em que o fim de sua invencibilidade é associado à postura arrogante e paroquialista. Estaríamos diante daquilo que o professor Joseph Nye denominou "o paradoxo do poder americano".

A crise mais recente no Afeganistão é mais um sintoma desse processo: escancara não apenas o problema do poderio dos Estados Unidos e seu declínio relativo propriamente dito, mas também as incertezas de um mundo com lideranças frágeis. Ao mesmo tempo em que revela o potencial destrutivo de intervenções estrangeiras dotadas de vocação missionária, expõe a expectativa de que as potências sejam as fiadoras da manutenção da segurança e da estabilidade no sistema.

Ao defender a decisão dos Estados Unidos de se retirarem do Afeganistão, mesmo diante do colapso que temos testemunhado desde a chegada do Talibã à Cabul, o presidente Joe Biden tentou ressignificar, em rede nacional, uma lógica que os próprios norte-americanos defenderam anos atrás. Biden tentou afastar dos Estados Unidos a responsabilidade de "construir uma nação" ou tutelar, de forma permanente, um país.

Embora tenha reconhecido falhas da equipe de segurança, sobretudo em projetar prazos para o retorno do Talibã ao poder, o discurso de Biden foi frágil e incômodo. A fala de Biden foi orientada por uma lógica de transferência de responsabilidades. No auge da crise, o governo norte-americano optou por culpar a vítima: alegou que os próprios afegão abandonaram o país, na medida em que as lideranças do governo se renderam e fugiram. Afirmou que os militares afegãos, mesmo treinados pelas forças ocidentais, não estavam lutando. Defendeu a ideia de que o Afeganistão é quem deveria apresentar resistência ao Talibã, e não os militares dos Estados Unidos. Disse, inclusive, que a estratégia de evacuação antecipada foi desencorajada pelo governo afegão.

Com olhos no público interno, Biden tentou fazer colar a ideia de que os Estados Unidos estão comprometidos apenas com seus próprios interesses e que não querem se contaminar com as mazelas de terceiros. O problema é que, com isso, revelou mais vulnerabilidades do que forças. Expôs os limites das capacidades norte-americanas, exibiu as chagas da narrativa que pautou as escolhas norte-americanas durante a "Guerra ao Terror", e reforçou a noção de que os Estados Unidos saem definitivamente derrotados da missão que um dia se propuseram a encampar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL