PUBLICIDADE
Topo

Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Novos testes na Coreia do Norte confirmam ineficácia da "política Trump"

Presidente Donald Trump e o líder norte-coreano, Kim Jong-un - Saul Loeb/AFP
Presidente Donald Trump e o líder norte-coreano, Kim Jong-un Imagem: Saul Loeb/AFP
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

16/09/2021 08h32

Acompanhamos, nos últimos dias, mais um momento de elevação de tensões entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. Os dois países testaram, ontem, mísseis balísticos e, com isso, reacenderam o debate sobre a estabilidade na região.

O Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, defende o desmantelamento do arsenal norte-coreano em troca do alívio das sanções vigentes. Ao reagir ao mais recente episódio, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Ned Price, reforçou o compromisso de aliança dos Estados Unidos com Seul e classificou a ação norte-coreana como uma "violação de várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU".

Ao voltar à tona, o tema reacendeu o debate sobre os desdobramentos da negociação iniciada por Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-un em 2018.

Depois de ameaçar Pyongyang com "fogo e fúria" e da sistemática troca de insultos entre as lideranças dos dois países, Trump aceitou o convite de Kim Jong-un para um encontro no que se constituiria como a primeira cúpula entre um presidente dos Estados Unidos em exercício e um líder norte-coreano.

A reunião ocorreu em 12 de junho de 2018, em Singapura. Na ocasião, derivou dela uma declaração que sinalizava para a intenção de construir relações cooperativas e não mais de confronto. Em meados de 2019 Trump também se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a colocar os pés na Coreia do Norte, cruzando a Zona Desmilitarizada para um breve encontro com Kim Jong-un.

Naquele momento, o então presidente norte-americano fez questão de pontuar que deixaria, no trato com a Coreia do Norte, um legado histórico. Trump alardeou sobre os símbolos daquela aproximação e buscou reforçar, em todas as oportunidades, a ideia de que produziria feitos significativos.

Pouco tempo depois, no entanto, a realidade parece em muito contrastar com esse conjunto de expectativas. Apesar da pompa e circunstância, dos ritos e dos protocolos, a aproximação dos dois líderes não produziu avanços concretos na relação bilateral, nem criou condições para o equilíbrio regional.

No trabalho de bastidores, conduzido por especialistas e diplomatas, não houve o estabelecimento de quaisquer acordos ou compromissos relevantes. Nenhum dos lados ofereceu concessões concretas, e a Coreia do Norte logo retomou os testes de mísseis. Na prática, o que parece ponto pacífico, é apenas o reconhecimento de que desde 2019 as negociações sofrem de uma paralisia crônica.

Como é típico de governos que somente se alimentam de imagens e narrativas, a relação com a Coreia do Norte é mais um exemplo do modus operandi trumpista: a política do "muita espuma e pouco chope".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL