PUBLICIDADE
Topo

Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No conflito envolvendo EUA e Rússia, a Ucrânia é apenas um detalhe

só para assinantes
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

11/02/2022 04h00

Temos acompanhado atentamente, nas últimas semanas, a escalada da tensão entre Rússia, Ucrânia e as potências ocidentais. Não à toa, boa parte das nossas colunas recentes versaram sobre diferentes dimensões dessa crise, que monopoliza a atenção dos analistas internacionais.

Apesar das assimetrias entre Rússia e Ucrânia, que evidentemente não podemos ignorar, estamos falando de dois países grandes e relevantes para a estabilidade da eurásia. A Rússia, superpotência até outro dia, dispensa apresentações. Trata-se do maior país do mundo em extensão territorial. É o segundo maior produtor de petróleo do planeta. Tem o segundo maior arsenal nuclear e é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. A Ucrânia é o segundo maior país da Europa e abriga o terceiro maior exército do continente. Faz fronteira com a Rússia e funciona como rota energética que liga importantes gasodutos desse país à Europa Ocidental.

É fato que os laços entre Rússia e Ucrânia repousam sobre raízes históricas profundas, envolvendo, muito antes da consolidação da União Soviética, percepções de uma identidade compartilhada que gira em torno do conceito de "aliança eslava". É fato também que desde a desintegração soviética, nos anos 1990, a indisposição entre os dois países é igualmente crescente.

A Ucrânia abarca uma região etnicamente diversa e de movimentos nacionalistas efervescentes, que se exacerbam com a formação de coalizões pró Europa Ocidental e pró Rússia ao longo das últimas décadas. De Viktor Yushchenko a Víktor Yanukóvytch temos assistido a um constante vai-e-vem na agenda internacional da Ucrânia. O primeiro, representa a ala simpática à liderança dos Estados Unidos e que desfruta de apoio da OTAN. O segundo, simboliza o grupo que defende a aproximação com a Rússia, o afastamento de alianças militares ocidentais e de qualquer movimento que sinalize uma eventual adesão à União Europeia.

Foi precisamente por conta das incertezas e da falta de garantias em manter um país aliado que o governo Putin optou, em 2014, por invadir e anexar regiões consideradas pró-Rússia na Ucrânia, como foi o caso da Crimeia, de Luhansk e de Donetsk. Esse movimento gerou vocal reação da comunidade internacional. O conflito teve mortos e muita polêmica em torno de uma verdadeira guerra de narrativas que se estabeleceu naquele momento. Para consolidar a paz na região e tentar promover um cessar fogo imediato foram negociados, em 2015, os chamados "Acordos de Minsk", que giravam em torno de 13 compromissos a serem assumidos entre as partes, mediados pelos então líderes de França e Alemanha, François Hollande e Angela Merkel, respectivamente. Tudo isso, no entanto, não pôs fim às diferenças entre os países nem serviu para dissipar a polarização dentro da Ucrânia.

Na contramão das iniciativas de cooperação, os últimos anos foram marcados por desconfiança de todos os lados. A OTAN se moveu no sentido de preparar-se para conter eventuais avanços russos no leste europeu. Os Estados Unidos despejaram volumosos recursos em Kiev, ao mesmo tempo em que realizam exercícios militares na região com o apoio europeu. A Ucrânia investiu em uma nova guinada pró-Ocidente. A Rússia realizou ataques cibernéticos contra o vizinho e agora mantém mais de 100 mil soldados posicionados na fronteira.

Embora a Ucrânia esteja no centro do debate, o olhar atento ao xadrez geopolítico global revela que outras coisas estão por trás dessa disputa. Ela tem a ver muito menos com o que almeja a Ucrânia per se e muito mais conexão com a disputa de esfera de influência entre Estados Unidos e Rússia e a defesa da reputação de suas lideranças, Joe Biden e Vladmir Putin.

Do ponto de vista intelectual, estrategistas norte-americanos há muito tempo defendem a ideia de que a aproximação com a Ucrânia é fundamental para conter o aumento do poder russo. Do ponto de vista prático, não à toa, a OTAN incorporou massivamente países que haviam pertencido ao bloco soviético. Para os Estados Unidos, têm a ver com controle, estabilidade e preservação de sua própria condição de superpotência em um mundo assolado pela constante ameaça do declínio hegemônico. Interessa manter a proximidade com os aliados, reforçar a noção de um "bloco unido", e conter movimentos estratégicos envolvendo particularmente Rússia e China, bem como o casamento entre elas.

O Kremlin, por outro lado, busca garantias de que será possível consolidar seus interesses materiais e ideacionais de expansão e resgate do protagonismo russo na região e no mundo. Usa as diferenças na Ucrânia, portanto, para expor os gargalos do poderio norte-americano, testar os limites de Biden e amplificar o barulho sobre qualquer eventual erro. Procura, ao mesmo tempo, explorar as dissonâncias entre os Estados Unidos e seus próprios parceiros - vide a relutância europeia em acompanhar os norte-americanos na elevação de tom com os russos no atual momento.

Nos dois casos, tanto de Estados Unidos quanto de Rússia, estamos diante de lideranças que precisam reafirmar a que vieram. Que veem na Ucrânia um palco para propagar suas verdades com vistas ao consumo doméstico. Biden e Putin buscam, na Ucrânia, o fortalecimento de suas posições que, por razões distintas, carecem de permanente reforço.

Há muita coisa em jogo, não apenas aspectos óbvios relacionados à segurança internacional em termos tradicionais. Ao falar sobre essa crise, estamos falando sobre ameaça nuclear e violência, claro, sobre a vulnerabilização de direitos humanos e migração, mas também sobre riscos cibernéticos, sobre o preço do petróleo, o uso político do gasoduto Nord Stream 2, e sobre os desafios que podem se impor ao sistema global de pagamento SWIFT, por exemplo. Estamos falando sobre o futuro da política internacional.