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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na Coreia do Norte, novos testes nucleares contrastam com crise de Covid-19

O líder norte-coreano Kim Jong Un  - AFP/KCNA via KNS
O líder norte-coreano Kim Jong Un Imagem: AFP/KCNA via KNS
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

21/05/2022 10h10

Há algumas décadas testemunhamos notícias relacionadas ao desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano. Somente entre 2006 e 2017 foram seis diferentes testes. Agora, depois uma série de apresentações de mísseis, e com a chegada do presidente dos Estados Unidos Joe Biden à Ásia, aumentaram os rumores de que um novo experimento poderia ser realizado como forma de provocação e demonstração de força do governo Kim Jong-un.

Segundo o relatório do Departamento de Estado norte-americano, o World Military Expenditures and Arms Transfers de 2021, os gastos militares da Coreia do Norte podem representar, ao longo dos últimos anos, até mais de 25% do PIB médio do país. Se confirmado, seria o Estado que, em termos relativos, teria a maior proporção de gastos militares no mundo em relação ao próprio PIB.

O sofisticado programa nuclear, que inclui mísseis, ogivas, bombas e outros equipamentos contrasta com a realidade de uma sociedade pobre e afetada por problemas estruturais graves, como a insegurança alimentar, por exemplo. Em 2022, soma-se à já extensa lista de dificuldades, a onda de Covid-19 que agora também afeta o país.

Depois de negar a incidência da doença em seu território por anos, o governo norte-coreano confirmou o primeiro caso de coronavírus nas últimas semanas. Desde então foram reportados mais de 2 milhões de casos de "febre", como tem sido tratados pela mídia estatal.

Para a Coreia do Norte, três são os problemas principais no combate a essa crise:

1) a escassez de recursos, medicamentos e equipamentos para tratar doenças respiratórias graves;

2) a capacidade limitada de testagem;

3) a falta de acesso à vacinas e imunizantes, depois que o país recusou ajuda internacional, ofertada, inclusive, pelo consórcio Covax, da OMS.

O resultado disso é o temos acompanhado: informações de que o governo recomenda chá quente e gargarejo com água salgada como forma de administrar o aumento do número de pessoas doentes.

Embora os contrastes escandalizem, a estratégia, que coloca a esfera militar em primeiro lugar, se explica na medida em que tem como objetivo reforçar a narrativa que sustenta o governo. As preocupações com a sobrevivência do país e a provisão de segurança funcionaram, até hoje, para gerar coesão interna e sustentar grupos específicos no poder.

Se, por um lado, o discurso de inimigos externos a serem combatidos tem sido o elo central para a perpetuação da dinastia Kim no poder, por outro, deixa a dúvida sobre até quando os desafios internos poderão ser contidos. A crise de Covid-19 é mais um capítulo nessa história.