Topo

Coluna

Jamil Chade


PMs dentro da embaixada dizem não ter instrução do governo sobre como agir

Polícia faz segurança na Embaixada da Venezuela - Eduardo Militão/UOL
Polícia faz segurança na Embaixada da Venezuela Imagem: Eduardo Militão/UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/11/2019 13h37

A invasão da embaixada da Venezuela em Brasília vive um impasse gerado pelo comportamento do governo brasileiro.

Policiais militares que estão dentro da embaixada da Venezuela em Brasília têm afirmado a pessoas no interior do prédio que não têm orientação do governo brasileiro sobre o que fazer diante da invasão do escritório diplomático. Enquanto isso, um enviado do Itamaraty ao local também tem evitado declarar e informar aos policiais o posicionamento do governo.

Fontes dentro da embaixada invadida por aliados de Juan Guaidó explicaram à coluna que os PMs de fato estão dentro do local, enquanto vários outros aguardam nos portões da entidade.

Vídeo divulgado por aliados de Guaidó mostra grupo de apoiadores de Maduro

TV Folha

Mas o que causa o impasse é o fato de que esses policiais não estão cumprindo qualquer ordem de remoção dos invasores nem comunicando qual seria o posicionamento oficial do governo brasileiro. Já os diplomatas de Caracas se recusariam a abrir mão de sua posição.

Na ONU, o caso é seguido com atenção máxima diante do potencial de que haja retaliações por parte de Nicolas Maduro ou mesmo uma ação violenta em Brasília. A entidade já deixou claro que é responsabilidade do governo brasileiro proteger a embaixada e os diplomatas venezuelanos.

Leia também:

Também causou indignação e temor de diplomatas brasileiros uma mensagem de Eduardo Bolsonaro nas redes sociais, insinuando um apoio ao ato em Brasília.

No começo do dia, nas redes sociais o governo de Jair Bolsonaro apontou que não reconhecia a invasão e que não havia sido informado. O presidente ainda indicou que tomaria "as medidas necessárias para resguardar a ordem". As declarações foram feitas em um post em seu no Facebook, apagado cerca de uma hora depois.

O GSI, em uma nota, criticou a invasão. "Como sempre, há indivíduos inescrupulosos e levianos que querem tirar proveito dos acontecimentos para gerar desordem e instabilidade; o presidente da República jamais tomou conhecimento e, muito menos, incentivou a invasão da Embaixada da Venezuela", diz a nota do GSI.

Mas, dentro da embaixada, a PM insiste que não recebeu ordens sobre o que deve ser feito.

Fontes também destacam o fato de que um diplomata enviado pelo Itamaraty ter evitado tomar posição ou traduzir em ação a nota do GSI. Nos últimos meses, o chanceler Ernesto Araújo tem demonstrado uma aliança clara com Guaidó e chegou a levar à ONU membros da oposição como parte da delegação brasileira.

Os PMs teriam entrado na embaixada a convite do encarregado de negócios da Venezuela em Brasília. Mas, horas depois, pessoas dentro do local disseram que a PM tem insistido que não recebeu orientações sobre como agir e que "não sabem" quem é o responsável venezuelano no Brasil.

Partidários de Guaidó ocupam embaixada da Venezuela em Brasília

redacaojornaldocommercio

Mediação

Três deputados brasileiros também estão no local —Samia Bomfim, Glauber Braga e Paulo Pimenta.

Eles indicaram ao diplomata que atua como mediador que, ao não condenar a invasão e nem repassar aos policiais a instrução do governo, o Brasil estaria cometendo uma violação das convenções que regulam o funcionamento do serviço diplomático.

Para eles, o representante do Itamaraty precisa dizer claramente que não reconhece a invasão, o que não está ocorrendo.

A posição dos deputados é de que tanto a PM como o diplomata que entraram a convite do encarregado de negócios da embaixada. Mas, agora, estariam agindo à revelia do chefe da missão.

Os deputados ainda questionaram os invasores se eles estariam armados. Mas o grupo se recusou a responder.

Jamil Chade