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Jamil Chade


Vazamentos sobre Odebrecht levam à queda de procuradora-geral no Panamá

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

15/11/2019 04h00


O vazamento de mensagens que envolveriam as investigações sobre a corrupção da Odebrecht no Panamá leva à renúncia da procuradora-geral do país centro-americano, Kenia Porcell.

Ela liderava as investigações contra a empresa brasileira e dezenas de políticos locais, inclusive ex-presidentes.

Mas a publicação de conversas entre um ex-presidente do Panamá, Juan Carlos Varela, apontou como um acordo com a Odebrecht pode ter sido tratado entre ele e Kenia.

Em meados de 2017, a construtora fechou um acordo com o MP do Panamá, pelo qual aceitaria pagar uma multa de US$ 220 milhões.

Mas, de acordo com as mensagens vazadas, Varela tratou do acordo com seu irmão, o deputado José Luis Popi Varela. O parlamentar intervinha como intermediário entre o presidente e um dos diretores da Odebrecht no Panamá, André Rabello.

As conversas, publicadas pela imprensa panamenha, sugerem pressões para que Rabello fosse beneficiado.

Em maio de 2017, uma das conversas entre os dois irmãos teria citado Kenia Porcell. O então presidente revelaria que estava em contato com a procuradora-geral.

Nesta semana, em entrevista a uma rádio local, Kenia anunciou que irá deixar o cargo no final de 2019, cinco anos antes do final de seu mandato. Havia sido o próprio Varela quem a nomeou para o cargo, em 2014. Mas ela rejeita qualquer irregularidade e garante que jamais atendeu a pedidos.

Conhecido como "Varelaleaks", o vazamento indicou como o ex-diretor da Odebrecht teria usado seus contatos políticos na negociação de um acordo. Antes de ser questionado pelo MP, Rabello insistia em ver o rascunho do acordo entre os procuradores e a Odebrecht.

De acordo com as mensagens, o executivo queria fazer chegar uma mensagem à procuradora de que ela poderia ter acesso às delações dos executivos da Odebrecht fora do Brasil. Ele ainda prometia supostamente manter em sigilo "informações comprometedoras".

Numa das trocas de mensagens, o irmão do presidente sugere ao ex-mandatário que tratasse do assunto com Kenia "em privado" e ainda sugeriu que Varela desse um "push" para fechar o acordo.

Mas o deputado também sugeria como deveria ser a pena imposta sobre o executivo da Odebrecht. Seu pedido era para que a prisão decretada não fosse de mais de três anos, já que uma pena superior representaria seu dever de cumprir uma pena mais longa no Brasil.

Nesta semana, Varela emitiu um comunicado, criticando o vazamento. Segundo o ex-presidente, a interceptação de suas conversas foi "ilegal" e representa "o ato mais baixo de covardia de adversários políticos".

"O principal objetivo desses vazamentos é, sem dúvida, minar a credibilidade de nossas instituições democráticas e desviar a atenção sobre os casos de corrupção e luta contra o crime organizado no país", disse.

Jamil Chade