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Jamil Chade


Empregada com carro e viagem ao exterior. Por isso chamam de democracia

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/02/2020 18h34

GENEBRA - A empregada que limpa minha casa uma vez por semana vem de carro ao trabalho. Na verdade, ela não é a única. As últimas três empregadas que eu tive todas tinham seu automóvel.

A babá das filhas do vizinho foi ao Japão de férias no final do ano. O pai das crianças teve de pedir folga no banco em Genebra, onde é gerente, para cuidar dos filhos. Não o ouvi reclamando do fato de a mulher ter direitos.

Há uns dias, num restaurante aqui na Suíça, vi que meu filho de seis anos acenou para uma senhora na mesa ao lado. Foi até ela e conversou por alguns minutos. Eles obviamente se conheciam.

Quando retornou para a mesa, perguntei quem era. E ele respondeu com uma total naturalidade:

"A mulher que limpa os banheiros e o corredor da escola".

Num concerto do conservatório frequentado pelo meu filho mais velho, descobri que o mecânico do meu carro também estava presente. Eu e ele tínhamos algo em comum: ambos levávamos os filhos para a mesma professora de piano. Na verdade, havia algo mais em comum: os dois garotos estavam tocando Bach.

No jardim de infância em que meus filhos estudaram, a classe era composta pela filha de um banqueiro que a depositava com seu Porsche e o filho do lixeiro do bairro. Na sala ao lado, um renomado arquiteto tinha seu filho na mesma classe do filho da caixa do supermercado local.

Existe disparidade de renda na Suíça? Sim. Existem famílias que vivem sérios problemas? Certamente. O lixeiro dificilmente irá a um jantar na casa do banqueiro e os muros são reais e impenetráveis numa sociedade que não deixa de viver das entranhas mais obscuras do capitalismo.

Mas o trabalho, de um modo geral, se remunera de forma humana. Qualquer um deles. Afinal, são todos humanos. Ou não?

Num recente levantamento da principal revista semanal da Suíça, L'Illustré, fica claro que a diferença entre o salário da emprega doméstica e um diplomata ou um médico não passa nem perto da disparidade brutal de renda no Brasil. Segundo os dados, uma empregada ganha em média US$ 3,8 mil por mês. Já um médico tem um salário médio apenas três vezes maior, contra US$ 10 mil para um economista.

Uma situação decente para todos é de interesse da sociedade e de sua estabilidade. Por isso, podem chamar isso aqui de democracia. Já o resto não passa de um parque de diversões onde apenas alguns poucos têm direito a rir. E um número ainda menor o privilégio de sonhar.

Jamil Chade