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Jamil Chade


Entidades cogitam coordenação entre discursos de Bolsonaro e Trump

Presidente Jair Bolsonaro durante anúncio de medidas contra o coronavírus - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro durante anúncio de medidas contra o coronavírus Imagem: ADRIANO MACHADO
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/03/2020 08h25

O tom usado pelo presidente Jair Bolsonaro em sua mensagem ao país na noite de terça-feira sobre o coronavírus deixou entidades internacionais perplexas e preocupadas com o destino de milhares de pessoas. Os técnicos das agências também viram com desconfiança o fato de Bolsonaro ter adotado um discurso muito similar ao de Donald Trump, seu aliado.

Em Genebra, fontes de alto escalão das entidades questionam se o gesto do brasileiro foi "espontâneo", ou algo coordenado para "testar o terreno" e reforçar o posicionamento de Trump na mesma direção. Na terça-feira, tanto o chefe da Casa Branca como Bolsonaro organizaram declarações a seus respectivos cidadãos.

Não é a primeira vez que a comunidade internacional suspeita de uma coordenação na mensagem entre os governos dos EUA e do Brasil no que se refere à pandemia. Há uma semana, depois de Trump usar o vírus para atacar a China, o deputado Eduardo Bolsonaro também retornou dos EUA com a mesma narrativa. Seu posicionamento abriu uma crise diplomática com Pequim, que insinuou que o filho do presidente teria sido instruído a adotar tal postura depois de uma viagem para Miami. Naquela ocasião, Bolsonaro e Trump trataram da crise do coronavírus.

Em sua fala nesta semana, Bolsonaro questionou alguns dos pilares martelados desde janeiro pela OMS para tentar frear a pandemia. Ele colocou em xeque o distanciamento social e o fechamento de escolas. Mas, acima de tudo, deu a impressão de que a doença apenas atinge os mais velhos, algo que a OMS tem alertado que não é o caso.

Além das agências internacionais, diplomatas estrangeiros qualificaram a reação do presidente do maior país da América do Sul de "alarmante".

Há poucas semanas, o diretor-geral da agência, Tedros Adhanom Ghebreyesus, chegou a dizer que vender tal percepção de que se trata de um doença que mata apenas idosos - mesmo que fosse verdade - representa a "falência moral" da sociedade.

Numa outra coletiva, Tedros foi enfático: "jovens: vocês não são invencíveis".

Para fontes nos organismos internacionais, o discurso é "perigoso", já que incita os mais jovens a desrespeitar medidas de distanciamento social e cuidados básicos.

Mas é o tom de Bolsonaro minimizando a doença - a chamando de histeria e "gripezinha" - que gerou enorme preocupação entre os técnicos internacionais nesta quarta-feira.

Consultados pela coluna, vários deles indicaram que o temor é de que, ao mandar essa mensagem, Bolsonaro mina a tentativa da OMS de conscientizar milhões de pessoas sobre a necessidade de tratar a doença como algo sério. Por semanas, a direção da agência vem tentando convencer políticos pelo mundo de que a situação é grave. "Acordem", chegou a dizer o chefe de operações da entidade, Michael Ryan, aos governos.

Trump

Nos últimos dias, ainda que cautelosa, a agência de saúde tem mandato mensagens de alerta aos EUA sobre o comportamento da liderança na Casa Branca.

Trump, em meio à crise, optou por criticar os chineses, no que foi interpretado na OMS como uma tentativa de desviar o foco. Na terça-feira, a agência chegou a fazer um anúncio raro, alertando para o risco de as cidades americanas se transformarem no novo epicentro da doença.

Nos últimos dias, a direção da OMS, da ONU e de agências humanitárias pelo mundo têm alertado sobre a necessidade de que líderes assumam suas responsabilidades e que evitem mensagens que não estejam baseadas na ciência.

Tedros, no início da semana, fez um apelo aos líderes do G-20 para que "façam mais" para conscientizar suas populações.

Numa carta enviada ao presidente Jair Bolsonaro e aos demais líderes do G-20, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, apelou para que as maiores economias do mundo se unam para dar uma resposta à crise gerada pelo coronavírus e que saiam ao resgate dos países mais pobres do mundo.

Caso contrário, o documento obtido pela coluna alerta para o risco de que o mundo seja atingido por uma "pandemia de proporções apocalípticas".

O G-20 irá manter uma reunião extraordinária nesta semana, ainda que encontros entre ministros tenham demonstrado a dificuldade do grupo em achar um plano comum.

Segundo Guterres, o mundo espera do G-20 "uma ação decisiva". O chefe da ONU também fala abertamente em uma recessão e indica que o Covid 19 vai exigir uma "resposta como nunca antes". "Um plano de guerra em termos de crise humana", disse na carta.

Para ele, o G-20 tem a oportunidade de demonstrar "solidariedade" com o mundo, especialmente com os mais vulneráveis.

Jamil Chade