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Jamil Chade

Movimento negro brasileiro apoia inquérito na ONU sobre violência policial

Pessoas de luto se reuniram hoje em Mineápolis em uma cerimônia para lembrar George Floyd, cuja morte sob custódia policial desencadeou uma onda de protestos que assolaram os EUA - Reuters
Pessoas de luto se reuniram hoje em Mineápolis em uma cerimônia para lembrar George Floyd, cuja morte sob custódia policial desencadeou uma onda de protestos que assolaram os EUA Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/06/2020 12h48

Mais de cem organizações do movimento negro brasileiro anunciam seu apoio ao projeto apresentado na ONU para se criar uma comissão de inquérito para investigar a brutalidade policial nos EUA e em outros países e o racismo.

O texto foi submetido às Nações Unidas pelos países africanos, como reação à morte de George Floyd, nos EUA. O governo brasileiro ainda não tomou uma decisão sobre como votará. Mas uma ala dentro do Itamaraty defende que o Brasil seja contrário ao projeto. Pelo menos dois motivos estariam pesando.

O primeiro deles se refere à aliança entre Brasília e a Casa Branca. Washington vem pressionando governos a barrar o projeto no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Mas o governo brasileiro também teme que, se aprovada, a comissão de inquérito também poderia analisar o comportamento da polícia brasileira. No texto, a resolução aponta que não apenas a situação americana deveria ser avaliada, mas também em "outras partes do mundo" onde o fenômeno tenha sido registrado nos últimos anos.

Numa declaração feita na ONU nesta terça-feira, a entidade que reúne as ONGs nacionais, Coalizão Negra por Direitos, indicou que apoia "a proposta de resolução sobre os Africanos e dos Povos de Ascendência Africana e a brutalidade policial".

"Em 2017, tivemos mais de 65.000 homicídios no Brasil - o mais alto nível histórico. 49.500 eram afro-brasileiros - homens e mulheres", disse. "Entre 2007 e 2017, mais de 400.000 afro-brasileiros foram mortos sob violência policial, disputas entre gangues, mas acima de tudo, vítimas de discriminação racial histórica e racismo estrutural no Brasil", denunciaram.

"O brutal assassinato de George Floyd demonstra isso através das revoltas e manifestações nas ruas, e a demanda por justiça racial é global", afirmam. "No Brasil, apoiamos essa luta e esses protestos, e exigimos justiça para todos os nossos jovens e para a população negra", disseram.

"O Brasil é um país em dívida histórica com sua população negra. Não há democracia, cidadania ou justiça social sem o compromisso público de reconhecer o movimento negro como detentor de direitos e lutar contra a brutalidade policial", alertaram.

"Além disso, centenas de quilombolas estão ameaçados de expulsão de suas terras devido a projetos econômicos, especialmente na Amazônia brasileira", completaram.

Disputa

Em reuniões nesta terça-feira na ONU, porém, o projeto de resolução revelou o racha na sociedade internacional em relação ao tema do racismo e da violência policial. Se a China e Rússia demonstram seu apoio à iniciativa dos africanos, como um claro instrumento de pressão contra os EUA, diversos governos ocidentais insistiram que tal inquérito não seria necessários.

Um dos maiores defensores dos americanos foi a Austrália. "Não apoiaremos o texto da forma que está", disse. Para o aliado de Washington, não são apenas negros que sofrem discriminação ou violência policial. Na avaliação dos australianos, tal iniciativa "dividiria" o mundo. O governo do Japão, também aliado de Washington, deixou claro que é contra a investigação.

Já a UE preferiu insistir que o racismo é um problema global e que, portanto, a resolução deveria ser "mais ampla", sem selecionar países.

A Human Rights Watch, porém, pediu que as delegações no encontro tivessem a coragem de olhar para o vídeo da morte de Floyd.

Representantes africanos ironizaram as propostas dos países ocidentais, que pediram que a resolução seja "o mais amplo possível". A manobra é uma tentativa de evitar responsabilizar diretamente o governo dos EUA.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL