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Jamil Chade


Covid-19 completa 6 meses com Brasil como uma das "ameaças globais"

11/06/2020 - Manifestação da ONG Rio da Paz na praia de Copacabana; organização faz protesto contra a postura do governo federal no combate à covid-19 com a abertura de covas simbólicas nas areias da famosa praia carioca. 39.797 pessoas morreram no Brasil com a doença. - ERBS JR./FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
11/06/2020 - Manifestação da ONG Rio da Paz na praia de Copacabana; organização faz protesto contra a postura do governo federal no combate à covid-19 com a abertura de covas simbólicas nas areias da famosa praia carioca. 39.797 pessoas morreram no Brasil com a doença. Imagem: ERBS JR./FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

28/06/2020 04h00

Na próxima semana, o mundo completa seis meses de uma crise sanitária inédita, que abalou sociedades em todo o planeta e, como citou a ONU, virou o mundo de "cabeça para baixo". A pandemia, porém, não dá sinais de perder força e, na próxima semana, o número de 10 milhões de casos será atingido.

Se foram necessários dois meses para que os cem mil primeiros casos fossem registrados, hoje essa marca é atingida diariamente. Por semana, quase um milhão de novos contaminados são somados.

Mas meio ano depois do primeiro alerta oficial da China, em 31 de dezembro de 2019, e meses depois da emergência global declarada pela OMS no final de janeiro, é a situação no Brasil que ocupa em grande parte o centro das atenções nos debates a portas fechadas em Genebra.

Com 200 milhões de habitantes e sem controle, o país é avaliado por parte dos especialistas como uma "ameaça global" na luta contra a pandemia, ao lado dos EUA.

De uma forma geral e contando desde os primeiros casos, o Brasil aparece na segunda posição em termos de mortes e casos. Mas, para os especialistas, não é o número acumulado desde o começo da crise que confere uma fotografia mais útil da situação.

Dados oficiais da UE indicam que, nos últimos 30 dias, o Brasil liderou no registro de novos casos, com 863 mil, quase cem mil acima do segundo colocado, os EUA. Em termos de mortes, o país também ocupa o primeiro lugar no último mês, com um total de 30,6 mil.

Nos últimos sete dias, o Brasil ainda lidera o mundo em termos de mortes e de novos casos, segundo os dados da OMS.

Em 14 dias, período de incubação do vírus, o Brasil também ocupa o primeiro lugar. Foram 441 mil casos neste período, 20% de todos os casos no mundo.

Mas não é apenas o número elevado que preocupa. Para as agências internacionais, não existe hoje no Brasil um plano claro de como sair da crise, a fatiga da população sobre a quarentena torna a medida cada vez mais frágil, o pacote de ajuda econômica do governo mostra limites sérios e não há um aumento suficiente no número de testes.

O resultado é uma avaliação interna das mais pessimistas sobre o país, que passou a ser visto como um problema real à resposta global e um exemplo a não ser seguido.

A exclusão do Brasil da lista de países que serão autorizados a voltar a voar para a Europa a partir do dia 1 de julho é apenas um sinal de como o mundo está reagindo. A UE promete apresentar uma nova lista com novos países a cada 15 dias. Mas diplomatas de Bruxelas confirmam à coluna que há uma forte resistência contra uma eventual inclusão do Brasil no futuro imediato.

Ordem é de não responder às provocações de Bolsonaro

Oficialmente, a ordem dentro da OMS é a de não criticar governos específicos em público, inclusive o Brasil. Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da entidade, passou a agir com cautela em suas coletivas de imprensa, justamente para não aprofundar o que já é uma crise política de enormes proporções.

A cada referência ao Brasil em público, os dirigentes da OMS rapidamente citam o caso de outros países para deixar claro que não estão singularizando a crise.

A ordem na agência é a de não responder às críticas e provocações do presidente Jair Bolsonaro ou de Donald Trump. Tedros considera que são os países seus chefes e, portanto, não lhe caberia contra-atacar em público. Mas há também um entendimento de que uma crise política ainda maior não salvaria vidas.

Em terceiro lugar, a OMS considera que muitas das críticas e ameaça de sair da entidade, como fez Bolsonaro, são apenas discursos para atender sua base eleitoral.

A coluna apurou que, mesmo depois de anunciar sua ruptura com a OMS, o governo americano até hoje sequer enviou uma carta para a organização para oficializar sua intenção. Ou seja, os EUA continuam a fazer parte do organismo.

No caso do Brasil, enquanto em público Bolsonaro ataca a agência, nos bastidores o Itamaraty enviou uma carta para organismos internacionais pedindo para fazer parte de uma aliança internacional por vacinas.

Indignação

Mas, longe dos holofotes, o Brasil é tratado com palavras duras por parte de alguns dos principais responsáveis pela agência internacional, que consideram que o governo está fazendo com que a população pague um preço alto por "atitudes irresponsáveis" de seus líderes.

As referências sobre o Brasil nos bastidores alternam entre a "indignação" e uma preocupação real de que o descontrole permanecerá por semanas ainda.

A indignação se refere ao fato de que a América Latina foi a região que mais tempo teve, em teoria, para se preparar. Se a crise teve na Ásia seu início, ela passou ainda pela Europa antes de desembarcar com força na região. "O Brasil teve tempo para se preparar e optou por minimizar a crise", disse um funcionário de alto escalão da agência. "Muitas vidas poderiam ter sido salvas", afirmou.

Por semanas, a OMS alertou países que a hora era de se preparar. Mas, do lado brasileiro, a reação foi considerada como "lenta" também pela cúpula da ONU.

Hoje, Mike Ryan, diretor de operações da OMS, admite que um número maior de mortes continuará a ser registrado na América Latina. Nos bastidores, o temor é de que não exista sequer como prever ainda quando a doença atingirá seu pico.

Jamil Chade