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Jamil Chade


Governo terá de explicar influência de Olavo de Carvalho no Itamaraty

Ex-chefe da estratégia Stephen Bannon fala com o escritor Olavo de Carvalho antes da apresentação do  do filme "O Jardim das Aflições" para convidados em hotel em Washington - JOSHUA ROBERTS/Reuters
Ex-chefe da estratégia Stephen Bannon fala com o escritor Olavo de Carvalho antes da apresentação do do filme "O Jardim das Aflições" para convidados em hotel em Washington Imagem: JOSHUA ROBERTS/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/07/2020 11h35

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, terá de prestar esclarecimentos formais sobre o eventual papel que Olavo de Carvalho teria na formulação da política externa brasileira que, nos últimos meses, vem assombrando o mundo com posturas ideológicas e isolando o Brasil no cenário internacional.

Num requerimento enviado ao Itamaraty, a bancada do PSOL na Câmara dos Deputados cobra de Ernesto Araújo esclarecimentos. Pela lei, o ministério é obrigado a prestar informações quando é solicitado por deputados.

A carta, obtida pela coluna, lembra que o chanceler se referiu, em 2019, a Olavo de Carvalho como "um homem que, após o presidente Jair Bolsonaro, talvez seja o grande responsável pela imensa transformação que o Brasil está vivendo".

"Pergunta-se: em que bases e em que sentido seria Olavo de Carvalho o grande responsável pela transformação do Brasil?", questionam os deputados. "O Sr. Olavo de Carvalho exerce algum papel na formulação e na execução da atual Política Externa Brasileira? Em caso afirmativo, descrever de que modo e em que termos", solicitam os deputados, liderados por Fernanda Melchionna.

Outro ponto do questionamento é o uso da Fundação Alexandre de Gusmão, ligada ao Itamaraty, para promover eventos com discípulos de Olavo de Carvalho.

"Quais os critérios de seleção dos temas e dos conferencistas das atividades Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG)? Solicita-se o envio de uma lista exaustiva de todas as atividades da FUNAG realizadas desde janeiro de 2019 até a presente data, discriminadas por tipo e data, acompanhadas de uma breve descrição dos objetivos de cada atividade, acompanhadas da relação exaustiva de todos os custos e a lista de eventuais convidados, especificando para cada um deles seus respectivos cargos, qualificações profissionais e acadêmicas", solicitam.

Nos últimos meses, a entidade organizou seminários, todos eles com referências ao guru do governo. Em várias das mesas, porém, os convidados eram pessoas que, hoje, estão sob investigação.

"Qual a avaliação deste Ministério sobre eventuais danos à sua credibilidade à credibilidade da política externa brasileira em virtude da participação em eventos da FUNAG de blogueiros bolsonaristas sob investigação do Supremo Tribunal Federal no inquérito sobre disseminação de notícias falsas ("fake news")?", questionam os deputados.

"Este Ministério possui acordo com o conteúdo das exposições de Bernardo Kuster e Allan dos Santos? Em caso negativo, solicita-se o detalhamento do posicionamento oficial do Itamaraty evidenciando os pontos de discordância em relação às exposições dos referidos convidados", pedem.

Entre os eventos, um deles ainda chamou a atenção. A FUNAG convidou Bertrand de Orleans e Bragança para uma aula. Mas o apresentou como "Sua Alteza Real e Imperial", por ser descendente da monarquia. Agora, porém, os deputados querem saber se houve anuência do Itamaraty e da Presidência para a utilização deste título e dos logos oficiais do Itamaraty e do governo federal na divulgação do evento.

Aparelhamento ideológico

Para justificar seu pedido, o PSOL aponta que "diariamente a sociedade brasileira e a comunidade internacional se veem surpreendidas com posicionamentos do Brasil junto a organismos internacionais tanto por sua forma quanto por seu conteúdo".

"Só nesta semana, a representação brasileira na Organização das Nações Unidas (ONU) exigiu a retirada de um trecho de uma resolução do Conselho de Direitos Humanos que versava sobre o acesso universal à educação sexual como forma de combater a violência e a discriminação contra mulheres e meninas e de outro que mencionava "saúde reprodutiva" em uma resolução contra mutilação genital feminina", afirmou.

"Estes episódios se somam a uma lista extensa de investidas do país contra a proteção dos direitos de mulheres e crianças na esfera internacional, e a uma ampla relação de iniciativas vexatórias de nossa política externa", alertam.

"Há algumas semanas, o Brasil não assinou um pacto ao qual mais de 130 países aderiram contra a propagação de informações falsas no contexto da pandemia de Covid-19; e votou contra uma resolução da ONU que recomenda a aplicação do Direito Internacional na questão dos assentamentos impostos por Israel no território palestino. No ano passado, o país também alterou drasticamente sua posição em relação ao embargo econômico imposto à Cuba pelos Estados Unidos da América (EUA), votando contra uma resolução que condenava a medida, acompanhado apenas por Israel e os EUA, abandonando um posicionamento de quase três décadas", apontam.

"Em todas estas ocasiões, os posicionamentos brasileiros aparecem como materialização do esforço empreendido por Ernesto Araújo de atacar o que chama de "globalismo" - a seu ver, um plano das esquerdas mundiais para implantar o comunismo em escala global através de organismos internacionais como a ONU", explicam os deputados.

" O chanceler não esconde que reconhece o astrólogo Olavo de Carvalho como um dos grandes responsáveis pelas mudanças pelas quais passa o país e sob sua gestão, a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) parece estar a serviço do pensamento olavista, minando diariamente o prestígio do Itamaraty", apontam.

"Neste contexto de afastamento da respeitada tradição diplomática brasileira, de ataques ao multilateralismo e de um aparelhamento ideológico extremo, acientífico e inconsequente das relações exteriores, urge que este Parlamento e a sociedade em geral tenham acesso às informações aqui solicitadas", completam.

Jamil Chade