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Jamil Chade


OCDE: Brasil será maior produtor de soja do mundo; desmatamento preocupa

Vista aérea de plantação de soja no Mato Grosso - Paulo Whitaker
Vista aérea de plantação de soja no Mato Grosso Imagem: Paulo Whitaker
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/07/2020 07h13

A disputa comercial entre EUA e China deve transformar o Brasil no maior produtor de soja do mundo na próxima década. A previsão foi apresentada nesta quinta-feira pela FAO e OCDE, num levantamento que avalia o mercado agrícola até 2028. Mas o desmatamento preocupa no Brasil e no resto da América Latina, e as entidades alertam que qualquer flexibilização das regulamentações ambientais poderia representar um risco de desmatamento.

"Espera-se que as importações chinesas de soja cresçam 1,5% ao ano para cerca de 113 milhões de toneladas em 2028, respondendo por cerca de dois terços das importações mundiais de soja", explica. Estados Unidos, Brasil e Argentina deverão responder por 87% das exportações mundiais de soja até o final da década. Mas enquanto os Estados Unidos foram historicamente o maior exportador mundial de soja, o Brasil assumiu esse papel com crescimento constante em sua capacidade de exportação.

"Até 2028, projeta-se que o Brasil será responsável por 42% do total das exportações mundiais de soja. Este desenvolvimento é favorecido pelas tarifas adicionais de 25% aplicadas pela China sobre a soja importada dos Estados Unidos. Presume-se que estas tarifas permanecerão em vigor durante todo o período de previsão", explica a FAO.

A entidade admite que a expansão da produção de soja nos Estados Unidos e no Brasil estará sujeita aos resultados das negociações comerciais em andamento entre a China e os Estados Unidos. Isso, segundo os especialistas, "poderá resultar em uma expansão do cultivo de soja no Brasil para responder à demanda chinesa e a conversão paralela da área de soja em milho nos Estados Unidos".

De acordo com o levantamento, o Brasil e os Estados Unidos produzem atualmente quantidades semelhantes de soja (cerca de 120 milhões de toneladas em 2016-18). "Mas na próxima década, o crescimento projetado no Brasil (1,8% ao ano) deverá ser mais forte que nos Estados Unidos (1,2%), principalmente devido à possibilidade de expansão da área plantada, principalmente através da intensificação da cultura através do cultivo duplo de soja com milho", apontou.

"Além disso, assumindo que as tarifas adicionais que a China introduziu recentemente na soja dos Estados Unidos permaneçam em vigor, a soja brasileira desfrutará de uma vantagem competitiva no maior mercado de importação do mundo", disse.

"Com sua produção interna atingindo 144 milhões de toneladas até 2028, o Brasil se tornará o maior produtor mundial, ultrapassando os Estados Unidos, para os quais a produção está projetada para ser de 121 milhões de toneladas até 2028", afirmou a FAO.

Meio Ambiente

Mas há uma preocupação também direta com a produção da soja e seu impacto ambiental. "As preocupações dos consumidores com relação à soja decorrem da alta participação da produção de soja derivada de sementes geneticamente modificadas", dizem as entidades.

"Na União Europeia, em particular, os esquemas de certificação de produtos animais baseados em rações livres de produtos geneticamente modificados estão ganhando força e podem deslocar a demanda de rações para outras fontes de proteína", apontaram.

"As preocupações ambientais também estão aumentando, especialmente no que diz respeito a uma ligação potencial entre desmatamento e aumento da produção de soja no Brasil e na Argentina. Estas preocupações têm motivado o setor privado a incentivar o uso de terras já desmatadas para novas expansões de área", indicaram.

"Se forem bem-sucedidas, estas iniciativas voluntárias devem desencorajar o desmatamento adicional de terras pelos produtores de soja", admitem.

De acordo com a FAO e a OCDE, a América Latina perdeu uma área florestal considerável durante as últimas três décadas. "De 1990 a 2015 o desmatamento afetou 9% da área florestal, ou seja, 90,3 milhões de hectares. Quase 60% dessa perda ocorreu no Brasil", destacou.

"Embora não tão grande em termos absolutos, a América Central perdeu 25% de suas florestas durante este período; a América do Sul perdeu 9,5%, enquanto o Caribe aumentou sua área florestal em 43,4%", explicou.

A taxa de desmatamento diminuiu ao longo dos anos, e foram introduzidas políticas para reduzi-la ainda mais. "No entanto, o Brasil apresentou uma perda líquida em área florestal de quase um milhão de hectares entre 2010 e 2015, enquanto o Paraguai, Argentina e Bolívia perderam cerca de 300 000 hectares cada um", revelam os números.

"A área florestal como porcentagem da área total de terra na região diminuiu assim de 51,3% em 1990 para 46,4% em 2015", destacou a FAO.

Para as entidades, o crescimento agrícola tem contribuído, direta ou indiretamente, para o desmatamento. "As políticas e regulamentações agrícolas e ambientais, a legislação e a falta de vigilância adequada e de capacidade de execução também desempenharam um papel no desmatamento. Assim, qualquer flexibilização das regulamentações ambientais poderia representar um risco de desmatamento", alertaram.

Pandemia

Para a FAO e OCDE, a pandemia deve levar a uma queda no preço de alimentos no mundo, com um impacto real para os exportadores.

"Em abril de 2020, o consenso de especialistas sobre os impactos da COVID-19 antecipou uma contração tanto na oferta quanto na demanda de produtos agrícolas e apontou possíveis rupturas no comércio e na logística", disseram.

"Essas perturbações afetarão todos os elementos do sistema alimentar, desde o fornecimento primário, ao processamento, ao comércio e sistemas logísticos nacionais e internacionais, até a demanda intermediária e final", indicaram.

"Um cenário inicial da COVID-19 fornece algumas percepções preliminares sobre os impactos a curto prazo da atual pandemia nos mercados agrícolas. O cenário ilustra como a pandemia da COVID-19 poderia criar um choque de mercado historicamente significativo. Neste cenário, os preços agrícolas caem fortemente em resposta à COVID-19 induziu um declínio na renda disponível, especialmente em países de baixa renda. Devido a esta perda sem precedentes no poder de compra, o consumo de alimentos pelo consumidor diminuirá, apesar das quedas compensatórias dos preços", explicaram.

O cenário inicial mostra uma contração da demanda por óleo vegetal e produtos animais, enquanto a demanda por alimentos básicos seria menos afetada.

Os mercados agrícolas mundiais também enfrentam uma série de outras incertezas além da pandêmica COVID-19. "No lado da oferta, estas incluem a propagação de doenças e pestes como a febre suína africana ou invasões de gafanhotos, resistência crescente a substâncias antimicrobianas, respostas regulatórias a novas técnicas de cultivo de plantas e respostas a eventos climáticos extremos", indicam.

"Do lado da demanda, elas incluem dietas em evolução, refletindo percepções com respeito às preocupações de saúde e sustentabilidade, e respostas políticas às tendências em obesidade", completam.

Jamil Chade