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Projeto prevê Brasil em cúpula de aliança mundial de vacinas contra vírus

Entrevista coletiva da OMS em Genebra -
Entrevista coletiva da OMS em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/08/2020 06h53

Um rascunho de um projeto para a criação de uma aliança mundial de vacinas contra a covid-19 sugere a participação do Brasil como um dos 25 membros do conselho do grupo, conhecido como ACT. Além de coordenar a distribuição mundial de uma vacina, a meta da iniciativa é a de acelerar pesquisas em diagnósticos e tratamento. A OMS, porém, alerta que conta com apenas 10% dos recursos necessários para que o projeto possa funcionar.

A inclusão do Brasil no grupo ocorre pela dimensão de seu mercado e por sua influência, diante de sua população, para determinar preços e volumes da vacina no mundo. O governo ainda não definiu como seria sua participação. Mas, conforme a coluna revelou, já submeteu cartas aos organismos internacionais demonstrando seu interesse em fazer parte da aliança.

A iniciativa, comentam fontes dentro do Itamaraty, mostra os limites da narrativa do governo brasileiro de criticar novos organismos internacionais e questionar o multilateralismo como solução para problemas globais. O documento, obtido pela coluna, foi preparado por especialistas da OMS e entidades internacionais do setor de saúde.

Além do Brasil, essa categoria de países incluiria EUA, China, África do Sul, Rússia e Índia. Uma segunda categoria envolveria apenas países com forte capacidade de doação de recursos, entre eles Canadá, Alemanha, Japão, Noruega e França. O conselho ainda incluiria grupos regionais, tais como a União Africana, OEA ou a Liga Árabe, além da sociedade civil e entidades internacionais como o Banco Mundial e a OMS.

A arquitetura da instituição ainda está sendo negociada e dependerá da aprovação dos principais atores internacionais. O governo americano, por exemplo, faz parte do rascunho do projeto. Mas seu presidente, Donald Trump, já anunciou sua saída da OMS.

Em abril, a OMS reuniu governos de várias partes do mundo para fazer parte da aliança, que ganhou o nome de ACT. Um de seus mecanismos seria o Covax, uma espécie de consórcio destinado a garantir estoques de vacinas e um plano de distribuição mundial.

A meta é de que o fundo evite uma corrida mundial pela vacina e uma guerra financeira, deixando milhões de pessoas em países mais pobres sem o produto. Num primeiro momento, todos os países que fazem parte da aliança receberiam o equivalente a 3% de sua população. Os produtos seriam destinados a vacinar acima de tudo profissionais de saúde.

Numa segunda etapa, idosos e pessoas com doenças crônicas seriam vacinados, o que representaria 20% da população desses países.

Num primeiro momento, porém, o Brasil não fez parte da iniciativa, gerando preocupação por parte de parlamentares e profissionais de saúde. Naquele momento, procurado pela reportagem, o governo disse que estava negociando sua participação em outras alianças. Dentro do Itamaraty, havia uma resistência em se aproximar a projetos da OMS, criticada duramente pelo presidente Jair Bolsonaro.

Semanas depois, o governo enviou uma carta às organizações internacionais manifestando seu interesse em fazer parte do plano.

Fazer parte do conselho, porém, não significa um acesso gratuito às vacinas. Agora, porém, o consórcio quer o estabelecimento de um contrato com os governos. Como o Brasil é um país de renda média, o governo não receberá vacinas gratuitamente e terá de pagar.

Pelo entendimento, o Brasil precisaria fazer um pagamento de uma primeira parcela, equivalente a 15% do total do valor final. Não se sabe ainda o montante, já que isso vai depender de quantos países vão dividir a conta e qual o valor da vacina.

O Ministério da Saúde explicou à coluna que o governo brasileiro está negociando qual será sua contribuição para a aliança de vacinas que está sendo construída pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Até o final de agosto, a agência quer concluir o contrato com os governos e estabelecer uma espécie de "entrada" no pagamento.

"O valor dependerá do preço final da vacina, que a GAVI ainda irá anunciar, e cada país participante deverá contribuir com soma suficiente para imunizar 20% de sua população", explicou a pasta de Saúde. "O compromisso financeiro ainda está em negociação", declarou.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, insiste que a aliança é a única resposta ao mundo. Segundo ele, os três próximos meses serão fundamentais para a construção do projeto. Mas ele alerta que existe enorme diferença financeira entre o que vai custar e o dinheiro que a agência tem.

Segundo ele, a OMS conta com apenas 10% do valor do financiamento necessário. Segundo ele, apenas as vacinas precisarão de 100 bilhões de dólares. "Isso parece muito. Mas é apenas uma fração do que governos destinaram em 10 trilhões de dólares para salvar suas economias", disse.

Mike Ryan, diretor de operações, aposta que a vacina será atingida em termos científicos. "Mas a questão é aumentar a produção e garantir a distribuição, além de garantir o trabalho dos serviços nacionais. Vacina é só parte da resposta", indicou. Para ele, doenças como a poliomielite e sarampo contam com vacinas. E nem por isso o mundo conseguiu sua erradicação.

Fontes em Genebra revelaram à coluna que não há por enquanto uma definição de onde o governo brasileiro buscaria recursos para fazer o pagamento. O processo está ocorrendo de forma confidencial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL