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Resistência de Merkel ao Mercosul abala estratégia do Brasil no exterior

Ativistas se reúnem com chanceler alemã Angela Merkel em Berlim -
Ativistas se reúnem com chanceler alemã Angela Merkel em Berlim
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/08/2020 15h13

Resumo da notícia

  • Em entrevista à coluna, ambientalista que esteve com Merkel revela detalhes do encontro
  • Bolsonaro enfrentará mobilização mundial de jovens pela Amazônia a partir da semana que vem

A sinalização clara da chanceler alemã Angela Merkel de que não há garantias de um apoio ao acordo entre Mercosul e UE ameaça a principal conquista da política externa de Jair Bolsonaro e da força a uma onda de mobilizações internacionais por conta do meio ambiente a das ameaças na Amazônia.

Em entrevista à coluna, a ambientalista alemã, Luisa Neubauer, contou detalhes do encontro que manteve nesta semana com Merkel e a sueca Greta Thunberg. Durante a reunião, ela revela que a chanceler deixou claro que o acordo com o Mercosul, nas atuais condições, gera dúvidas por parte da líder do bloco europeu.

O acordo entre o Mercosul e a UE foi assinado em meados de 2019 e comemorado por Brasília como um sinal claro de que sua administração é aceita pelo mundo. O tratado também era uma espécie de chancela ao Itamaraty, em busca de um reconhecimento internacional. Mas, para entrar em vigor, todos os 27 países da Europa precisam ratificar o tratado. Por enquanto, parlamentos da Áustria, Holanda e Bélgica já deram sinais de resistência.

Mas, agora, é o motor da UE e um dos promotores do acordo, a Alemanha, que mostra que pode não ratificar.

Se o tratado diz que todos os 27 países europeus têm o mesmo poder de parar o acordo, a realidade da política e da diplomacia é de que alguns podem causar barulho. Mas apenas poucos países teriam o poder real de frear um projeto bilionário. Um deles é justamente a Alemanha, que neste semestre preside a UE.

O governo alemão não revelou o conteúdo da conversa entre as ativistas e Merkel. Mas indicou que a chanceler tem "sérias dúvidas" sobre a implementação do acordo diante do aumento do desmatamento na Amazônia.
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"Existem dúvidas consideráveis de que o acordo possa ser implementado como o pretendido, em vista dos acontecimentos atuais, das terríveis perdas florestais registradas", acrescentou o porta-voz do governo alemão.

Em entrevista neste sábado, Luisa, com 24 anos, explicou como o tema surgiu na conversa com a mulher mais poderosa da Europa. "Queríamos falar com ela sobre acordo com o Mercosul pois vimos como seria devastador", disse. Duas das ativistas no encontro estiveram na Amazônia em 2019. "Dissemos como estávamos preocupados", afirmou Luisa.

Antes do encontro, parceiros brasileiros do movimento do qual Luisa faz parte, o Fridays for Future, questionaram os alemães sobre o motivo pelo qual Merkel continuaria apoiando o acordo com o Brasil.

"Quando a dissemos, ela (Merkel) claramente articulou ceticismo sobre o acordo", explicou Luisa. De acordo com a ativista, Merkel apontou que, apesar de o acordo estar sendo negociado por anos, ela não via como poderia ser estabelecido. "Eu certamente não o apoio", teria dito Merkel aos ambientalistas.

Luisa preferiu não dar detalhes se Merkel tratou especificamente de Bolsonaro no encontro. "Mas concordamos sobre nossa preocupação sobre direitos humanos e o meio ambiente no Brasil", disse, diplomaticamente.


Protestos globais contra Bolsonaro

Mas o gesto de Merkel terá um impacto. Ao questionar o projeto com o Mercosul, a alemã garantiu apoio aos protestos de rua e mobilizações pela Amazônia.

De acordo com Luisa, os ativistas não vão simplesmente descansar diante das palavras de Merkel. Segundo ela, uma nova onda de ações ocorrerá para pressionar os governos europeus e o Brasil.

No dia 28 de agosto, por exemplo, uma campanha mundial será lançada, a "Amazon Action Day", com eventos em diversos países. Só na Áustria, por exemplo, a mobilização está marcada para ocorrer em Viena, Graz, Salzburgo, Innsbruck e em pelo menos mais cinco cidades.

No material do protesto, um livreto foi distribuído com "quatro razões para parar o acordo comercial Mercosul-UE".

Em meados de 2019, diante dos incêndios na floresta brasileira, o governo foi alvo de duras críticas pelo mundo, obrigando a diplomacia a se mobilizar. Agora, os ativistas que lotaram ruas das principais capitais da Europa e do mundo com estudantes - no movimento conhecido como Fridays for Future - prometem focar a atenção na situação específica do Brasil nas próximas semanas.

"Estamos preparando para uma nova campanha pela Amazônia. Será uma ampla campanha pela proteção da floresta e vamos incluir o debate sobre os acordos comerciais", disse. "Não podemos ter um acordo comercial que aprofunde a crise ambiental", insistiu.

Para ela, o que ocorre hoje no Brasil "é terrível e assustador". "Direitos humanos são minados de forma inaceitável e obviamente a destruição ecológica é acelerada", disse.

Luisa insiste que o tema não é apenas brasileiro.

"Não se trata de um assunto nacional. É um assunto global. Precisa ser lidado com responsabilidade e, no lugar disso, a Amazônia é vendida em troca de lucros e interesses de curto prazo que não são proporcionais às necessidade de proteger o ecossistema", disse.

Ela ainda criticou o "caráter negacionista" do governo e do ministério do Meio Ambiente. "O que ouvimos é a irresponsabilidade do governo", disse. "O que acontece no Brasil não fica no Brasil. As pessoas no Brasil precisam de apoio e temos de unir por eles. E não fazer acordos pelos quais poucos ganham", disse. "Não podemos aceitar tais acordos", completou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL