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Jamil Chade

ONU pressiona por uma solução para veto da OEA contra brasileiro

19.mar.2019 - Presidente Jair Bolsonaro durante encontro com o Secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington - Alan Santos/PR
19.mar.2019 - Presidente Jair Bolsonaro durante encontro com o Secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington Imagem: Alan Santos/PR
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/08/2020 09h38

A ONU pressiona para uma solução à crise inédita aberta na OEA por conta do veto ao brasileiro Paulo Abrão, derrubado do cargo de secretário-geral da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). A decisão de impedir um novo mandato ao brasileiro foi do secretário-geral da OEA, Luis Almagro, dirigente apoiado há poucos meses pelo Brasil, Colômbia e EUA.

Abrão foi escolhido para o cargo em 2016 e, neste mês, teria seu mandato renovado. Por unanimidade, a Comissão Interamericana aprovou em janeiro o nome do brasileiro para o período até 2024, mas o nome do jurista acabou sendo bloqueado pelo Almagro.

Oficialmente, o veto ocorreu por conta de "denúncias administrativas" contra o brasileiro. Almagro insiste que existem diversos queixas contra o brasileiro e que, portanto, sua decisão foi simplesmente a de impedir que ele continue no cargo.

A coluna apurou que, entre alguns os governos, a acusação é de que a questão administrativa foi apenas um pretexto e que a meta era a de enfraquecer o trabalho da Comissão em sua apuração de abusos de direitos humanos.

A CIDH é o principal órgão de direitos humanos nas Américas e, ainda que vinculado à OEA, tem uma ação autônoma. Em 2019, o Itamaraty assinou uma carta para alertar Abrão a respeitar a autonomia dos estados. O recado foi interpretado como um sinal de o governo Bolsonaro não aceitaria críticas por parte do órgão.

O próprio Almagro foi reeleito neste ano e foi apoiado por Brasil e Colômbia diante de seu papel contra o regime de Nicolas Maduro. Mas, segundo fontes de alto escalão dentro da entidade, foi pressionado a não renovar o mandato do brasileiro, que tinha a função de apurar violações de direitos humanos pelo continente.

Nesta quinta-feira, foi a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU Michelle Bachelet quem pediu que OEA tome "medidas imediatas para acabar com seu impasse com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre a liderança executiva da Comissão". Ela enfatizou a importância de garantir que a "independência, autonomia e eficácia bem estabelecidas da CIDH não sejam minadas".

Bachelet instou o Secretário Geral da OEA, Luis Almagro, e a Comissão Interamericana a agir de acordo com suas ofertas declaradas para resolver o problema através do diálogo, diz um comunicado.

"A Comissão Interamericana é um órgão imparcial mais eficaz e amplamente confiável, cujo trabalho é tido em maior consideração", disse Bachelet. "Ela tem proporcionado um recurso vital para as vítimas de violações dos direitos humanos nas Américas, e tem desempenhado um papel importante na defesa dos direitos dos grupos vulneráveis", afirmou.

"Seu papel robusto, e o da Corte Interamericana de Direitos Humanos, tornou ambos impopulares junto a certos governos em vários momentos de sua história", acrescentou a Alta Comissária. "Isto é até certo ponto inevitável se eles levarem a sério seu papel e permanecerem verdadeiramente independentes e autônomos, inclusive da própria OEA - como mandado pelo status da Comissão sob a Carta da OEA, a Convenção Americana de Direitos Humanos e o Estatuto da Comissão Interamericana", disse.

A ex-presidente do Chile indicou que essa "é uma situação muito prejudicial que corre o risco de minar a independência e a eficácia comprovada da CIDH". "Ela também está causando danos à reputação da OEA, portanto espero que possa ser resolvida em breve", completou.

"Isto não deveria ser sobre reputações pessoais, ou lealdades políticas, ou perda de prestígio - deveria ser sobre trabalhar para proteger os direitos humanos de centenas de milhões de pessoas em todas as Américas durante uma época de crise maciça", disse.

No Brasil, mais de 130 entidades brasileiras se mobilizam para protestar contra a decisão da OEA, alertando para o risco de um enfraquecimento do sistema de direitos humanos na região, num momento de ameaças à democracia em diversos locais, inclusive no Brasil. Além das entidades, mais de 70 parlamentares brasileiros também já protestaram.

Apesar da mobilização, o governo brasileiro continua em silêncio sobre o fato. Procurado para comentar o caso há dois dias, o Itamaraty até agora não respondeu aos pedidos da coluna.

Governos como o do México e da Argentina também mostraram sua preocupação diante dos acontecimentos. Durante seu mandato na agência continental, Abrão denunciou violações em diferentes países, inclusive na Venezuela, Colômbia, Bolívia, EUA e Brasil. Ele chegou a visitar o projeto de muro que os americanos pensavam em construir na fronteira com o México para denunciar a situação. Já Almagro é visto como uma pessoa próxima ao governo americano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL