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Jamil Chade

Precisamos que as belas palavras traduzam-se em ação agora

11/03/2020 - Uma funcionária analisa máscaras de proteção ao coronavírus em Beijing na China  - Xinhua/Ren Chao
11/03/2020 - Uma funcionária analisa máscaras de proteção ao coronavírus em Beijing na China Imagem: Xinhua/Ren Chao
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

19/10/2020 04h00


Autores: Dr Philipe Duneton, Diretor Executivo interino da Unitaid e Dr Paul Schreier, Diretor de Operações do Wellcome Trust


Como muitos países em todo o mundo estão agora passando pela segunda onda prevista da COVID-19, é compreensível que as suas populações estejam com uma sensação de déjà-vu. Mas há uma diferença clara desta vez. Ao nos aproximarmos do final de 2020, sabemos muito mais sobre os medicamentos, testes diagnósticos e vacinas que nos ajudarão a pôr fim a esta pandemia.

Por exemplo, já vimos que a utilização de medicamentos que originalmente tinham outras indicações, como a dexametasona, pode salvar a vida de pacientes sob ventilação mecânica. Além disso, no mês passado assistimos ao lançamento de novos testes de diagnóstico rápido, que dão resultados em apenas quinze minutos, mudando completamente o jogo no combate à doença. Os ensaios clínicos de inovações como anticorpos monoclonais estão mostrando resultados promissores.

Neste momento, os países mais ricos estão fazendo acordos para reservar medicamentos, vacinas e testes, com a esperança de que estes permitam às suas populações voltar à normalidade e reduzir o número de mortes pela COVID-19.

Essa resposta é compreensível. Mas a trajetória atual apresenta o risco de jogar os países com poder aquisitivo limitado para o final de uma fila crescente.

O Acelerador de Acesso a Instrumentos para a COVID-19 (ACT-A) é um esforço global e colaborativo que foi criado para garantir que as soluções para acabar com esta pandemia cheguem a todos os cantos do mundo, com o princípio fundamental de que "ninguém está seguro até que todos estejam". O investimento no acesso equitativo a instrumentos contra a COVID-19 não deve ser visto pelos países ricos como uma caridade, mas sim como um investimento essencial para assegurar que as suas populações - bem como outras - estejam protegidas.

Para fornecer tratamentos em todo o mundo, precisamos de 7,2 bilhões de dólares. Até agora, apenas 300 milhões de dólares foram angariados - sendo que as vacinas já receberam cerca de seis vezes mais recursos do que os tratamentos.

É imperativo reconhecer que uma vacina, se e quando surgir, não será uma panaceia. Levará meses e talvez anos para ser lançada em todo o mundo e o programa inicial pode não ser completamente eficaz. Isto significa que as pessoas continuarão a adoecer e continuarão a precisar de um diagnóstico rápido e de um tratamento adequado.

Não podemos apostar todas as fichas na busca de uma vacina. Precisamos de uma estratégia tríplice e de ponta a ponta que funcione para identificar casos através de testes rápidos; tratar
a COVID-19 de forma mais eficaz com medicamentos em constante evolução; e vacinar as populações contra infecções futuras.

No final do ano, teremos uma ideia clara de quais tratamentos funcionam e como e onde podem ser utilizados. Mas o fato é que essa é uma corrida contra o tempo.

O nosso receio é que quando surgir um novo medicamento ou teste inovador, simplesmente não tenhamos os fundos necessários para garantir que todos tenham acesso. Os países ricos já fizeram as suas encomendas a fabricantes de todo o mundo. Temos de fazer o mesmo em nome dos países com poucos ou médios recursos agora - se esperarmos até o início de 2021 será tarde demais.

No mês passado, os Ministros da Saúde e das Finanças do G20 deram o seu forte apoio ao ACT-A. Eles enfatizaram a necessidade de uma resposta global e o importante papel que a iniciativa desempenha na "aceleração da pesquisa, desenvolvimento, fabricação e distribuição de diagnósticos, terapêuticas e vacinas de combate à COVID-19". Eles encorajaram os países a fazer contribuições voluntárias para o ACT-A - e alguns já o fizeram.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no seu recente discurso sobre o Estado da União Europeia, fez referência aos 16 bilhões de euros angariados por meio de um esforço de mobilização liderado pela UE no início deste ano.

Mas apesar dos impressionantes compromissos assumidos nesse evento, os fundos simplesmente não foram disponibilizados.

Muitas belas palavras têm sido ditas por líderes de todos os cantos do globo. Mas agora é preciso que elas se transformem em ação concreta e dinheiro - e rapidamente.

Como líderes da parceria ACT-A Terapêutica, estamos muito preocupados com o déficit significativo que está surgindo, particularmente para os tratamentos da COVID-19. Dos 7,2 bilhões de dólares necessários, 4 bilhões precisam chegar nos próximos dois meses.

Sem dinheiro na mesa, a chance de garantir um acesso justo para todos está desaparecendo rapidamente. O panorama econômico é sombrio para todos os países, mas os líderes não podem se dar ao luxo de adiar o financiamento dessas medidas vitais. Fazê-lo resultaria em consequências catastróficas para populações inteiras, prolongando a pandemia e o caos econômico que ela provocou.

Esta crise exige um momento de liderança política e financeira histórica. Nenhum líder pode dizer à sua população que ela está protegida enquanto outros países são deixados expostos.

O tempo das belas palavras acabou. A hora de agir é agora

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL