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Jamil Chade

Juntos, Brasil e EUA planejam barrar China na OMS, e isso incluiria vacinas

Bolsonaro se alia à estratégia de Trump. Caso americano não se reeleja agora em novembro, deixará a Presidência dos EUA em janeiro - Tom Brenner/Reuters
Bolsonaro se alia à estratégia de Trump. Caso americano não se reeleja agora em novembro, deixará a Presidência dos EUA em janeiro Imagem: Tom Brenner/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

24/10/2020 04h02

Os governos dos Estados Unidos (EUA) e Brasil atuam para frear a influência política da China na Organização Mundial da Saúde (OMS) no momento pós-pandemia e, nesse contexto, a ordem é a de reduzir qualquer tipo de espaço para Pequim, inclusive no papel central que o país pode assumir para suprir vacinas e outros bens.

Para interlocutores dentro do governo, a crise aberta nos últimos dias entre Brasília e São Paulo em relação à vacina com tecnologia chinesa Sinovac é interpretada como parte dessa ofensiva e lógica para impedir um protagonismo ainda maior de Pequim.

A operação na agência, porém, é apenas parte de uma estratégia maior de conter a expansão chinesa. Questionar a qualidade da vacina do país asiático, colocar em dúvidas o papel das autoridades chinesas numa suposta liberação do vírus e impedir que propostas por parte de Pequim ganhem força são partes do "arsenal" diplomático endossado pelo Brasil.

Em reuniões fechadas, o governo brasileiro passou a atacar abertamente o regime chinês, fazendo eco ao ponto de vista americano. Por meses, o chanceler Ernesto Araújo ainda fez menção ao risco do vírus do comunismo.

Diante das falhas da OMS em dar uma resposta à pandemia, os EUA se lançaram numa ofensiva para reformar a entidade. A Casa Branca convenceu o Brasil a fazer parte do processo e, assim, tentar impedir que, num cenário pós-pandemia, a China saia mais forte economicamente e mais influente no cenário internacional.

Enquanto o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, passou meses apelando por unidade da comunidade e enquanto o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Antonio Guterres, alertou sobre os riscos da falta de uma resposta global, o objetivo político e diplomático do governo americano era outro.

Blindagem antichineses

Central nessa estratégia seria transformar a OMS para evitar que a agência central de saúde do mundo atenda aos interesses chineses.

Num documento inicial circulado pelo governo de Donald Trump e obtido pela coluna, a diplomacia americana é clara: "o diretor-geral da OMS está exposto à influência política e a pressões que podem afetar a capacidade da OMS de tomar ações independentes".

Segundo a análise americana, o resultado disso foi uma entrada tardia da OMS na China no início da pandemia de covid-19 para avaliar o que de fato estava correndo. Além disso, diz o texto, essas pressões teriam levado a agência internacional a chancelar medidas da China sem poder comprovar se estavam sendo as melhores.

Para a blindagem da OMS, na visão dos EUA apoiada pelo Brasil, uma das metas é tornar o departamento de emergências da OMS completamente independente, inclusive em termos financeiros.

A reforma da OMS, portanto, tem uma meta: "insular de pressão política" o programa de emergências da entidade e o próprio diretor-geral. Em outras palavras: impedir que a China possa ditar o que ocorre na pauta de saúde do mundo.

Outro ponto: permitir restrições de viagens, um ponto que Tedros tentou evitar por semanas e, supostamente, por pressão da China.

Brasil se alinhou aos EUA em detrimento de parceiros sul-americanos

Meses depois, esse texto inicial americano foi transformado em uma proposta, com o apoio do Brasil. No lugar de ataques frontais contra a China, o documento passou por um verniz diplomático, com a defesa de elementos como "independência", "imparcialidade" e garantias de que governos que violem regras sanitárias sejam avaliados.

O Brasil, para a surpresa de delegações estrangeiras, optou por se aliar à proposta americana de reforma, enquanto o Chile e outros governos latino-americanos elaboravam sua própria.

O Itamaraty explica que o objetivo ao se aliar aos americanos e apoiar a proposta é de garantir maior transparência à OMS. Para o governo, o projeto americano é "uma boa base" para iniciar o processo de reforma.

Em reuniões da agência, nas últimas semanas, o governo chinês fez questão de insistir na tese de que sua gestão da pandemia foi transparente. Da parte de Pequim, a ordem é a de insistir na necessidade de solidariedade e mostrar compromisso com o sistema.

China pode ser responsável por metade da produção de vacinas contra covid-19

Ao longo dos últimos meses, os chineses ampliaram ajuda a cooperação na área de saúde a dezenas de locais do mundo, Só em máscaras, os chineses chegaram a exportar mais de US$ 40 bilhões e passaram a dominar o mercado global.

Mais recentemente, anunciaram sua adesão ao consórcio de vacinas da OMS. Por enquanto, nenhuma vacina chinesa faz parte da aliança global. Mas documentos usados pelos organizadores da iniciativa admitem que, já em 2023, 49% do fornecimento de vacinas contra a covid-19 no mundo virá da China, cerca de 7 bilhões de doses.

Dos EUA e Brasil, juntos, a capacidade de produção não passaria de 2 bilhões de doses.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL