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Jamil Chade

Derrota de Trump fragilizaria Bolsonaro no mundo e no Brasil, diz Ricupero

Rubens Ricupero  - Eduardo Knapp - 8.mai.15/Folhapress
Rubens Ricupero Imagem: Eduardo Knapp - 8.mai.15/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

26/10/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Para diplomata, sem Trump, isolamento do Brasil seria completo no mundo
  • Queda de Trump mostraria que onda do populismo nacionalista antiliberal anticientífico pode ser revertida
  • "Fim de pesadelo", derrota de Trump não é o paraíso. Mas cria condições que problemas comecem a ser lidados

A vitória de Joe Biden nas eleições americanas completaria o isolamento do Brasil no mundo, exigiria uma reconstrução da relação com os EUA "a partir do zero" e iria obrigar o governo a repensar sua política externa.

O alerta é do embaixador Rubens Ricupero, um dos nomes mais respeitado da diplomacia nacional no mundo. "Uma reviravolta muito grande nos Estados Unidos fragiliza a posição de Bolsonaro, que se torna muito precária no mundo e até no Brasil", disse.

Ex-ministro da Fazenda e ex-ministro do Meio Ambiente, Ricupero serviu na embaixada do Brasil em Washington nos anos de Jimmy Carter e foi embaixador do país nos EUA décadas depois.

Em uma longa entrevista à coluna, Ricupero avaliou o programa de Biden e o que representaria sua vitória para o Brasil.

"Se Trump for derrotado, a primeira consequência é mostrar que a onda que encarnou e parecia em ascensão irreversível - a onda do populismo nacionalista antiliberal anticientífico - foi revertida", declarou.

"Seria um autêntico terremoto, um pouco como despertar de um pesadelo", afirmou. Mas ele lembra que despertar de um pesadelo não quer dizer o desembarque paraíso, mas, sim, na realidade. "É preciso deixar claro que a derrota de Trump será um acontecimento gigantesco, mas apenas cria condições para enfrentar os imensos desafios que enfrentamos", afirmou.

Eis os principais trechos da entrevista:

O que está em jogo na área internacional na eleição norte-americana?

É uma transformação profunda do cenário político-ideológico que está em jogo. Se Trump perder, passamos a viver numa atmosfera completamente diferente, porque ele, com todos seus defeitos, marcou tanto os Estados Unidos como o mundo. O que acontece nos Estados Unidos ainda define muito da agenda internacional.

Nos últimos cem anos, houve três americanos que mudaram o país e o mundo, no sentido de ruptura radical com o que se fazia antes: Roosevelt, Ronald Reagan e Trump. Os demais podem ter sido bons presidentes como Obama, mas não inauguraram uma nova era.

Roosevelt, sim, a partir de 1933, foi o fundador do Estado de bem-estar social e do governo ativo no uso de políticas keynesianas contra a Grande Depressão, imitado em todo o mundo. Reagan, a partir de 1980, desfez boa parte disso. Estimulou a globalização, a desregulamentação financeira, o encolhimento do estado, o retrocesso em matéria social, dos direitos dos trabalhadores e sindicatos, provocando o aumento da desigualdade.

E Trump?

O fenômeno Trump resultou das consequências negativas da era Reagan. Sua eleição em 2016 vem na crista da onda contra os efeitos perversos da globalização excessiva. Só que, ao contrário de Roosevelt e Reagan, ele não conseguiu dar expressão concreta a seu programa. Ficou mais na parte destrutiva, na ruptura, concentrando-se no esforço de desconectar a economia americana da chinesa, a fim de trazer de volta os empregos eliminados pela concorrência da China.

E isso ocorreu?

Isso não está acontecendo. Apenas na área de segurança, as empresas americanas fornecedoras de chips foram forçadas a não vender mais para a Huawei. Nos outros setores, como o dos celulares da Apple, as grandes empresas estão esperando para ver o que vai acontecer e não saíram da China. Quando saíram, foram para o Vietnã ou outros países de mão de obra barata. Ele não conseguiu reverter a desindustrialização americana, trazer os empregos de volta. Da mesma forma, fracassou em reverter o abandono do carvão, não encontrou solução alternativa para o problema dos imigrantes, além da construção do muro, nem o do abuso de drogas, de opiácios, por parte dos desempregados. Não há dúvida de que ele representa uma ruptura, em relação a Obama, por exemplo, faz questão de ser o oposto em tudo.

Nisso e na gigantesca autoconfiança se esgota a semelhança de Trump com Roosevelt e Reagan, que tiveram vitórias eleitorais claras, uniram o povo americano, aplicaram um programa de governo coerente. Além disso, Roosevelt foi o grande vencedor do nazifascismo na 2ª Guerra Mundial, enquanto Reagan liderou a carreira armamentista que ajudou a destruir a União Soviética. O equivalente hoje seria a China, mas nesse campo, até agora Trump está perdendo a competição.

Comparado a esses antecessores, Trump de fato mudou a política interna americana em imigração, em direitos humanos, em clima e em praticamente tudo, mudando também as relações internacionais. Só que não conseguiu construir um mundo alternativo, permaneceu na desconstrução, sem chegar à construção. Nesse sentido, até o momento, Trump tem sido uma experiência truncada.

Qual seria uma consequência de uma derrota dele?

Se ele for derrotado, a primeira consequência é mostrar que a onda que encarnou e parecia em ascensão irreversível - a onda do populismo nacionalista antiliberal anticientífico - foi revertida. No mundo inteiro, se começa a perceber isso. Além da incapacidade de solucionar problemas, o maior fracasso dos governos populistas de direita tem sido em enfrentar a pandemia, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, na Índia e outros lugares. Em contraste, os governos na Itália, na Alemanha, na França, se fortaleceram na pandemia em detrimento da oposição populista.

Se Trump perde, será um acontecimento importantíssimo, porque todo esse clima político-ideológico que teve seu maior êxito com sua eleição, sofrerá enorme enfraquecimento. Os problemas não vão desparecer. Uma eventual eleição de Biden não irá resolver por milagre problemas como a globalização, a China, o aquecimento global e todos os outros. Mas, pelo menos, cria outra agenda.

Qual seria essa nova agenda?

Volta a dar prioridade ao aquecimento global, economia verde de baixo carbono, a desigualdade crescente, a busca nas relações internacionais de cooperação, mesmo entre regimes diferentes, para enfrentar desafios comuns, o reforço ao sistema da ONU e da OMC, o reforço dos direitos humanos, igualdade de raças, de gênero, tudo isso. Sobretudo haveria rejeição total à guerra cultural alimentada pelos fundamentalistas religiosos em matéria de homossexualismo, LGBT, aborto, controle de natalidade, temas encorajados pelo governo Trump e Bolsonaro, mas inteiramente rejeitado por Biden.

Seria um autêntico terremoto, um pouco como despertar de um pesadelo. Agora, quando se desperta de um pesadelo não quer dizer que você esteja no paraíso. Cai na realidade. É preciso deixar claro que a derrota de Trump será um acontecimento gigantesco, mas apenas cria condições para enfrentar os imensos desafios que enfrentamos.

Mas e se Trump volta a vencer?

Nesse caso, as consequências negativas serão muito graves, vai agravar todos os problemas e dificuldades. Por isso, não se pode subestimar a importância desse momento decisivo da história. Quem pauta a agenda internacional ainda são os Estados Unidos, no futuro será talvez a China. Por enquanto, os Estados Unidos dão as cartas.

Muitos insistem que, no plano internacional, os interesses permanentes dos EUA não mudam com uma troca de governos. Isso vale também neste caso?

Nesse ponto, a diferença será gigantesca. Com exceção de George Bush, pai, nenhum outro candidato a presidente acumulou tanta experiência na área diplomática como Biden, porque nos dois mandatos como vice de Obama, desempenhou papel central em muitas questões relativas ao Iraque, ao Irã, ao Afeganistão, ao conflito da Ucrânia. Antes, deve-se lembrar que ele foi senador de 1973 a 2009, tendo estado várias décadas na Comissão das Relações Exteriores. É raro encontrar um candidato cujas posições internacionais sejam tão conhecidas como no caso dele.

A questão climática seria uma dessas mudanças?

A expectativa é que provavelmente no primeiro dia do mandato, ele anunciará a volta dos Estados Unidos ao acordo de Paris. Também anunciou meta muito ambiciosa de carbono zero em 2035, com investimentos de dois trilhões de dólares. Outro aspecto é a pandemia.

Biden declarou que terá um plano de combate ao COVID-19 com três braços: um interno, com adoção de medidas fortes quanto a máscaras, distanciamento, etc. Um econômico, para permitir que a economia americana se recupere depressa. E o terceiro é internacional, que até agora mereceu pouca atenção no noticiário, seria os Estados Unidos liderarem o esforço mundial em prol de uma vacina, de caráter multilateral. Já disse igualmente que anularia a decisão de Trump de saída da OMS.

Um aspecto importante, com possíveis implicações embaraçosas para o Brasil é a prioridade anunciada para convocar uma grande Cúpula em favor da Democracia, Summit for Democracy. Seria uma reunião de líderes mundiais com três objetivos principais: a luta contra a corrupção, o combate ao autoritarismo crescente e a promoção dos direitos humanos. É fácil ver como o Brasil ficaria numa agenda desse tipo.

E na área militar, haveria uma mudança profunda?

Biden já declarou que a OTAN é a aliança militar mais importante da história, e que fortaleceria a Aliança Atlântica. Também prometeu que vai reconstruir o Departamento de Estado e devolver à diplomacia o papel de principal instrumento da ação externa. Segundo ele, a força só deveria ser usada em última instância e quando se puder definir objetivos claros.

Foi contra a intervenção tanto na Síria como na Líbia, embora o governo Obama tivesse participado. Provou, portanto, seguir postura bem mais cuidadosa no uso da força. Anunciou que voltaria ao acordo com o Irã, desde que o governo iraniano reverta as medidas que tomou para aumentar o estoque de urânio enriquecido e elevar o grau de enriquecimento.

Questão importante é a da limitação de armamentos. Ainda hoje, os Estados Unidos e a Rússia, juntos, possuem 93% do estoque mundial de armas nucleares. O acordo de limitação dessas armas (New Salt) expira no dia cinco de fevereiro de 2021. Portanto, poucos dias após a transmissão do cargo. Putin já propôs a recondução do acordo. Os americanos até agora não concordaram. Mas é provável que o Biden concorde imediatamente.

Um dos aspectos fundamentais do cenário mundial na próxima década será a relação entre EUA e China. Como o senhor avalia a postura de Biden?

Continuará a existir com a China o que os americanos chamam de "competição estratégica" em todos os domínios sensíveis. A diferença é que Biden acredita na possibilidade de competir pacificamente e, ao mesmo tempo, buscar a cooperação da China em temas de comum interesse como o aquecimento global, o problema nuclear do Irã, os mísseis e bombas da Coreia do Norte. Nesses temas ele acredita que haja um espaço para cooperar. Declarou igualmente que vai abordar a questão da China como um desafio geral que não é só dos Estados Unidos. Para tanto, terá de buscar o apoio dos aliados, abandonando a atitude de America First.

Em matéria de comércio, é um partidário moderado do livre comércio, mas se preocupa com o impacto negativo da globalização sobre empregos de trabalhadores de classe média. Afirmou que não assinaria nenhum acordo comercial que não contenha dispositivos para corrigir efeitos prejudiciais em empregos ou que tivessem sido negociados sem a participação de representantes de trabalhadores e defensores do meio ambiente. É a favor da criação de tarifas sobre produtos de países que não respeitam normas ambientais. Apoiou o novo acordo com o México, que continha o reforço da proteção aos trabalhadores. Mas criticou o acordo com o Peru por não contemplar suficiente proteção aos direitos trabalhistas. Tudo isso terá implicações para o Brasil.

De fato, nos últimos dois anos, o governo brasileiro parece ter construído uma relação com a Casa Branca, não com os EUA. Agora, se a equipe no poder for derrotada, como é que fica o Brasil no cenário internacional?

Você tem razão. A relação é inédita, no sentido de que é pela primeira vez se tem uma relação não de estado a estado, de país a país, mas uma relação quase pessoal de governante a governante. Jamais houve antes algo comparável. É claro que esse tipo de relacionamento desaparece, se desaparecer Trump. Seria então necessário reconstruir a relação a partir do zero, uma relação de Estado.

Isso terá de ser feito em circunstâncias muito adversas, no âmbito de uma transformação profunda no quadro político-ideológico do mundo, com beneficiários e vítimas. Os beneficiários serão países como os europeus, que estavam à margem da política americana; as vítimas são os que se identificaram exageradamente com a linha de Trump. Entre esses, é difícil encontrar um país que tenha exagerado mais que o Brasil.

O Brasil teria então que reconstruir sua relação com um governo e um partido que possuem uma agenda que não poderia ser mais negativa em relação à agenda brasileira. A agenda do Partido Democrata privilegia aquecimento global, acordo de Paris, preservação da Amazônia, a proteção dos povos indígenas, a proteção dos direitos humanos, é contra a guerra cultural, favorece políticas de gênero, tudo o que o governo Bolsonaro detesta.

Quando me perguntam: o Brasil seria capaz de reconstruir? Poder pode, mas terá de fazer uma apostasia, deverá na prática renegar suas atuais crenças e posições. Do contrário, vai ter problemas.

O sr. acha que existe espaço para isso?

Vejo apenas duas possibilidades: a primeira, que seria ideal, mas difícil de acontecer, é que o governo Bolsonaro retire de uma possível derrota de Trump a conclusão que deve mudar de modo drástico todas suas posições nos temas relacionados acima. Há quem ache que o presidente demonstrou instinto de autopreservação ao mudar seu comportamento em relação ao Supremo, o Congresso, as instituições democráticas.

É fato que, nos últimos meses, deixou de estimular as reuniões de domingo nas quais os partidários exibiam faixas exigindo intervenção militar, AI 5, fechamento do Supremo e do Congresso. É verdade, mas trata-se de mudança limitada apenas ao Congresso e ao Supremo, que decorre da necessidade de proteção individual dele e da família, dadas as investigações em curso e possibilidade de ordem de prisão para os filhos.

No Congresso, ele fez uma aliança com o Centrão para evitar que haja impeachment, aliança até agora mais negativa do que positiva, que não levou à aprovação de reformas, de um programa de governo. O essencial dessa aliança não é para fazer alguma coisa, mas para não fazer, para reunir maioria suficiente para impedir eventual impeachment.

No Supremo, a aproximação com Toffoli, Gilmar, alguns outros, agora com a nomeação do novo ministro, visa no fundo construir um Centrão dentro do tribunal, a fim de evitar que uma linha como a de Celso de Mello possa, agora ou no futuro, levar a um problema pessoal para ele ou para os filhos. Costuma-se até dizer, não sei se com algum fundamento, que o fator determinante da mudança foi a informação que teve sobre a possibilidade da decretação da prisão de seus filhos Carlos e Eduardo, envolvidos na investigação sobre as fake news.

Essa mudança nunca se estendeu ao conteúdo das políticas, que não sofreu qualquer alteração ou evolução. A agenda ambiental e de destruição da Amazônia não mudou, da mesma forma que a agenda de relações internacionais, a política ou falta dela em educação, a dos povos indígenas, a agenda das mulheres, dos negros, dos Direitos Humanos, do setor da ministra Damares, a da guerra cultural, tudo isso continua intocado.

É justamente esse enorme campo de políticas e prioridades que precisaria mudar radicalmente porque é isso que entrará em choque com a agenda do futuro governo americano como já está em choque com as posições da maioria do mundo civilizado.

A grande incógnita é essa: estaria ele disposto a mudar a agenda, de praticamente apostatar e negar tudo o que vem defendendo até agora?

Mas e se Bolsonaro não fizer esse gesto?

É provável que não fará isso, pois teria de alienar boa parte do apoio interno que o conduziu ao poder, dos evangélicos, dos grupos mais extremados, da franja lunática de Olavo de Carvalho e Ernesto Araújo. Se não chegar a tanto, qual é a alternativa? Manter essa agenda de direita de maneira mais moderada, mais controlada, e esperar que isso permita uma relativa coexistência com o governo americano e outros governos sem grandes atritos.

Seria um gênero de relacionamento com os Estados Unidos sem muita ambição. Em termos de vantagens concretas para o Brasil, não haveria grande mudança, pois a verdade é Trump nunca deu nada ao Brasil. Recentemente, quando o Bolsonaro concedeu a prorrogação da cota de etanol, Trump não correspondeu concedendo uma cota maior de açúcar, conforme desejava o Ministério da Agricultura. Limitou-se a repetir a cota que os americanos costumavam dar no passado. Logo em seguida, ampliou as barreiras contra nosso aço e alumínio. Até agora vem tapeando o pessoal daqui, como acaba de fazer com esse acordo modestíssimo de facilitação de comércio, muito parecido ao que o Brasil tinha assinado na OMC.

Significa, na prática, que o nosso país terá de adotar os padrões americanos de liberação. Como a balança comercial com os EUA já é desequilibrada contra nós, pois estamos com um déficit acumulado este ano de mais de três bilhões de dólares com eles, abrir mais as portas, facilitar as importações, sem em troca receber nenhuma redução de barreiras, vai apenas redundar em agravar mais esse déficit.

Não há qualquer sinal que Biden faça gestos ao Brasil.

Com um governo democrata, obviamente conseguir concessões é mais difícil ainda, porque a maioria democrata na Comissão de Ways and Means da Câmara, comissão chave para qualquer negociação, enviou há dois meses uma carta ao USTR, isto é, o departamento de comércio exterior do governo americano, dizendo que se opunha a qualquer negociação ou acordo a fim de aumentar as exportações brasileiras para os Estados Unidos. Argumentava a carta que o governo brasileiro não pode se beneficiar do comércio com os EUA porque está destruindo a Amazônia, violando os direitos trabalhistas e dos povos indígenas. Portanto, a não ser que os democratas mudem de opinião, a possibilidade de ter um acordo com o futuro governo democrata é igual a zero.

O senhor acha que a gente vive uma espécie de paralelo com o que também aconteceu com a situação dos direitos humanos no Brasil nos anos 70 e o choque com o governo de Jimmy Carter?

Acho sim. O tema dos direitos humanos tinha, na época do regime militar no Brasil, o peso que tem hoje o tema do meio ambiente, sobretudo tal como encarnado na Amazônia. Trata-se, por conseguinte, de um símbolo, de alguma coisa que concentra a atenção do mundo inteiro. Nosso comportamento nesse tema vai pautar a atitude do mundo exterior em relação a nós. Não tenho nenhuma dúvida de que, se a situação continuar a se deteriorar na Amazônia, em termos de destruição, incêndios, índios, vai chegar o momento em que países europeus e os Estados Unidos começarão a aplicar medidas restritivas às exportações brasileiras.

Como o senhor viveu aqueles anos de governo Carter?

Em 1976, quando Carter foi eleito, eu era conselheiro da embaixada em Washington, chefiava o setor político. Naquela ocasião, havia um panorama, de certa forma, parecido com o atual. Havia uma relação pessoal que parecia especial entre o chanceler brasileiro, Azeredo da Silveira e o Secretário de Estado norte-americano, Kissinger.

Nós da embaixada procuramos advertir que tudo indicava que o Carter ia ganhar e haveria problemas no horizonte, pois já na campanha ele havia criticado a situação dos Direitos Humanos no Brasil. Geisel, que era o presidente, estava tentando melhorar a situação nessa área, mas ainda se registravam abusos graves, como sucedeu depois com o assassinato de Vladimir Herzog. Carter também anunciou que se opunha ao acordo nuclear no Brasil com a Alemanha. Avisamos sobre o problema que se avizinhava, mas o governo brasileiro minimizou, não deu muita importância, até o choque da menção crítica ao Brasil na primeira mensagem ao Congresso (1977)

Foi isso que levou Geisel a denunciar os acordos militares com os EUA, porque qualquer cooperação militar com o Brasil passava a ser condicionada a um relatório do Departamento de Estado. Durante o governo Carter, a relação nunca melhorou. Era uma relação fria, distante e tensa.

E como foi a reação dos militares?

O interessante é que, apesar de Geisel repelir a ingerência americana, na prática ele mudou a situação brasileira de Direitos Humanos. Ele fez o que Bolsonaro provavelmente não vai fazer. O presidente demitiu o comandante militar de São Paulo e no final, demitiu até o General Frota, o ministro da guerra e chefe da linha dura. Apesar da mudança no Brasil, a relação com Washington permaneceu tensa. Por isso parece pouco provável que, em caso de derrota de Trump, não haja consequências negativas uma vez que o governo dos Estados Unidos é a única âncora da política externa brasileira. Ela não tem no exterior nenhuma outra grande referência ou fonte de possível apoio.

O atual governo brasileiro insiste em falar na Hungria e Polônia como parceiros...

Na verdade, isso não passa de fantasia, pois são países sem expressão e ademais, não mexeriam um dedo por nós. Na eventualidade de derrota de Trump, o isolamento do Brasil se tornaria completo, desaparecendo o único elo de Bolsonaro com um parceiro importante fora do Brasil. Evidentemente, isso obrigaria a repensar toda a política externa, mas não sei se o governo será capaz de perceber isso.

O Brasil precisaria conduzir política mais ativa de engajamento com a ONU, com os países latinos americanos, em relação à Venezuela, não de agressões, ameaças, sim de gestos construtivos. Proceder de maneira a que no exterior, o governo americano, outros governos, voltem a apreciar a importância do Brasil nas relações internacionais.

O chanceler Ernesto Araújo teria condições de continuar no cargo no caso de uma derrota de Trump?

No caso de vitória ampla de Biden, sobretudo com a conquista do Congresso, seria imperativo o governo brasileiro conduzir um exercício rigoroso de reexame de sua política externa. É o que se imporia a pessoas racionais, agora não estou certo que essa gente seja capaz de tomar as decisões corretas.

Nos últimos meses, o governo brasileiro usou instrumentos comerciais, até atitudes políticas externas, para tentar favorecer a eleição do Trump. Isso tem algum antecedente na diplomacia?

O Brasil nunca sacrificou os próprios interesses para favorecer um candidato de outro país. Exceto talvez no caso da decisão de Lula de fechar os olhos ao gesto de Evo Morales de decretar a nacionalização dos investimentos da Petrobras no gás boliviano. A atitude de Lula deveu-se à simpatia e afinidade ideológica, o que oferece alguma analogia com o que Bolsonaro está fazendo para favorecer Trump. Parece inacreditável, difícil de imaginar qualquer outro governo brasileiro capaz de levar tão longe a cegueira da paixão ideológica. Vê-se nessas atitudes como para os bolsonaristas a possibilidade de Trump continuar no governo é quase questão de vida ou morte.

De que forma esse impacto no Brasil seria sentido?

Uma reviravolta muito grande nos Estados Unidos fragiliza a posição de Bolsonaro, que se torna muito precária no mundo e até no Brasil. Não sei que outras consequências poderiam ocorrer. Tudo vai depender do que acontecerá na economia em primeiro lugar. O que é certo é que, nesse caso, o governo Bolsonaro fica bem mais vulnerável.

Como o isolamento se traduz em perdas concretas para o Brasil?

A primeira consequência será a impossibilidade de o Brasil encontrar no exterior condições para melhorar sua situação econômica. A fim de responder à essa questão, deve-se indagar: o que o Brasil precisa no exterior? O Brasil não é um país que tenha problemas de ameaça à sua segurança. Outros países são situados em regiões de conflitos, onde o problema número um reside na segurança nacional, em razão da ameaça de vizinhos poderosos ou da existência de conflito permanente como no Oriente Médio. Afastado das zonas quentes de conflito, o Brasil não tem problema de segurança, não precisa da proteção de uma superpotência, como no caso da Coreia do Sul ou de Israel.

Nessas circunstâncias, o que representa o mundo para o Brasil? Acima de tudo uma oportunidade de encontrar elementos que ajudem o Brasil a resolver seus problemas de desenvolvimento: investimentos para compensar a ausência interna de poupança, financiamentos para aprimorar a infraestrutura, acesso de exportações aos mercados, obtenção das tecnologias de vanguarda, parcerias para expandir a produção. Ora, o isolamento em consequência de problemas climáticos já começa a comprometer nossa posição econômica externa, como se vê pelas manifestações de grandes fundos de investimentos ou dos principais importadores de nossos produtos.

No momento atual, o Brasil simplesmente perdeu as condições para melhorar sua posição no mundo e já se vê ameaçado de não conseguir nem manter sua situação atual, que é bastante insatisfatória. Por exemplo, precisamos elevar o valor agregado de exportação, o que exige parcerias para entrar nas cadeias globais de valor, atraindo parceiros, negociando acordos com outros países. Nada disso é factível neste momento. Até agora, o país tem logrado manter o status quo de sua baixa posição no comércio mundial porque a China e os asiáticos são menos sensíveis a questões ambientais. Mas isso é muito pouco, não conseguimos melhorar. O ministro da Agricultura do governo Temer passou um mês na Ásia, buscando novos mercados. Já a atual ministra não tem condições de fazer isso, porque se tentasse conquistar mercados, teria de passar boa parte da viagem dando explicações sobre a destruição da Amazônia.

Nunca tivemos tanto dinheiro saindo do país. Já será uma proeza conseguir manter o status quo. Isso na presunção de que nossa situação externa não piore. Até agora o que nos ajudou é que o país não precisou do socorro do FMI ou do Tesouro dos EUA em caso de crise no balanço de pagamentos. O Brasil ainda tem reserva. Mas essas coisas podem mudar rapidamente se faltar confiança.

De que forma?

Vou dar um exemplo, que nada tem de implausível. Digamos que o governo Bolsonaro escolha um caminho populista a fim de garantir a chamada Renda Brasil, a adoção de um auxílio de emergência permanente. Para isso terá de acabar com o teto das despesas. Os mercados já temem essa possibilidade. Tanto assim que já estamos assistindo a duas consequências que ocorrem numa situação como essa. Primeira, a moeda brasileira se deprecia muito mais que as dos demais países emergentes, o dólar dispara ainda mais, podendo chegar a R$ 6,00.

Em segundo lugar, as taxas de juros de longo prazo ficam cada vez mais altas, obrigando o Tesouro a rolar a dívida com prazos sempre mais estreitos. Nessa situação, cedo ou tarde, o país teria problemas de balanço de pagamentos, e precisaria de socorro internacional. Conseguiria socorro com essa política ambiental? A simples evocação dessa hipótese basta para mostrar como a política do atual governo conduz o Brasil a uma situação de crescente vulnerabilidade, sobretudo se as condições internacionais se agravarem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL