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Jamil Chade

Na ONU, Brasil vai na contramão e elogia Trump por luta contra racismo

EUA vivem tensão após diversos episódios de violência policial contra negros, que teve ápice nos protestos após a morte do segurança George Floyd - Getty Images
EUA vivem tensão após diversos episódios de violência policial contra negros, que teve ápice nos protestos após a morte do segurança George Floyd Imagem: Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/11/2020 11h50

O governo de Jair Bolsonaro elogiou a situação de direitos humanos na administração de Donald Trump, em especial os esforços da Casa Branca na luta contra a discriminação racial. A declaração do Itamaraty ocorreu nesta segunda-feira, durante a sabatina realizada sobre os Estados Unidos (EUA) no Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas).

A revisão periódica universal é um processo obrigatório pelo qual todos os governos são obrigados a se submeter na ONU. A sabatina é o momento usado por países para cobrar aquele que está sendo examinado e criticar eventuais problemas de direitos humanos.

O governo brasileiro, porém, optou por uma postura de poupar seu principal aliado internacional e não teceu qualquer tipo de comentário crítico contra a Casa Branca. O Itamaraty é uma das poucas entre as chancelarias de países democráticos que ainda não reconheceram a vitória de Joe Biden nas eleições.

Ao tomar a palavra, a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, elogiou o governo americano por esforços para lidar com recomendações feitas em sabatinas anteriores. Entre os pontos de avanço destacado pelo Itamaraty estão as "implementações domésticas de tratados internacionais, a promoção de direitos civis e a luta contra discriminação racial".

O elogio brasileiro na questão racial se contrapôs a dezenas de outros governos que usaram a reunião desta segunda-feira para criticar a violência policial nos EUA e o "racismo estrutural".

Nas eleições presidenciais nos EUA, uma ampla maioria de afro-americanos votou contra Trump, em especial as mulheres negras. O movimento Black Lives Matter foi um dos principais motivos da maior conscientização do eleitorado contra o candidato republicano.

Brasil se coloca contra restringir protestos pacíficos

A única recomendação feita pelo governo brasileiro na ONU foi dirigida contra os estados americanos, e não contra o governo federal de Trump. O Brasil sugeriu que os estados não criem novas leis para impedir ou restringir protestos pacíficos. Segundo a embaixadora, desde março de 2017, houve uma proliferação de propostas estaduais para "criminalizar ou impedir" liberdade de expressão.

Em sua intervenção, o Brasil não tocou na morte de George Floyd e nem na questão da violência policial, que pautou o discurso de diferentes países pelo mundo. Canadá, Chile, Colômbia, Suíça, China, Sudão, Palestina, Sri Lanka, África do Sul e dezenas de outros apontaram para racismo e violência policial. "Estamos preocupados com a violência policial e racismo", disse a Turquia, que indicou para o fortalecimento de supremacistas brancos.

O Itamaraty também deixou de lado uma de suas pautas principais durante a sabatina: o apelo por uma moratória contra a pena de morte. Uma vez mais, o Brasil se contrastou a diversos outros que usaram a sabatina na ONU para criticar Trump por ter retomado as execuções, depois de uma paralisia de 17 anos.

Entre os países que criticaram a pena de morte nos EUA estavam Espanha, Bélgica ou Suécia.

Reino Unido cobra EUA sobre se oporem a educação sexual

Além do Brasil, a Ucrânia foi outro que elogiou o governo de Trump e se limitou a recomendar que todos os tratados de direitos humanos sejam ratificados.

Se o Brasil permaneceu em silêncio, o governo do Reino Unido cobrou dos americanos um esclarecimento sobre o motivo pelo qual é contra o direito ao acesso à educação sexual. A Austrália também criticou a postura e alertou que a "crença" que pode ser um limite ao acesso de mulheres a direitos básicos no campo da saúde.

Na região, o governo argentino foi o primeiro a criticar a violência policial e pediu que medidas sejam tomadas para evitar que novos casos como o de George Floyd voltem a ocorrer. Buenos Aires ainda alertou para o "racismo estrutural" nos EUA e apelou para que os direitos fundamentais de imigrantes sejam respeitados.

Em sua apresentação, o governo americano insistiu que estava lutando contra o racismo. Mas também criticou os protestos violentos e disse que não toleraria ataques contra policiais.