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Jamil Chade

OMS: "implosão" em Manaus é resultado da ausência de distanciamento social

Cemitério Parque Tarumã, em Manaus - Bruno Kelly
Cemitério Parque Tarumã, em Manaus Imagem: Bruno Kelly
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

15/01/2021 15h22

Resumo da notícia

  • Agência diz que Manaus deve servir de "lição ao mundo" de que pandemia não acabou
  • 7 mil testes ainda aguardam para ser realizados e 400 pessoas esperam para ser internadas na cidade
  • Para OMS, Brasil está entrando em "situação muito difícil"

Mike Ryan, diretor de operações da OMS, alerta que "todo o sistema (de saúde) começa a implodir" em Manaus e aponta que a crise não se limita ao Amazonas, mas é identificada no Amapá e Rondônia. Para ele, foi a falta de distanciamento social e exaustão do sistema hospitalar que gerou o colapso.

Ryan, numa coletiva de imprensa nesta sexta-feira, deixou claro que o Brasil entra "em uma fase muito difícil". Segundo ele, chefes das equipes de emergência da OMS estão na capital do Amazonas e estudam formas de ajudar, inclusive com apoio internacional.

"A situação se deteriorou de forma significativa", disse. Segundo ele, a ocupação de UTIs em Manaus é de 100% nas últimas duas semanas. "Mas não é a única área. Tivemos grandes problemas em relação à capacidade de UTI em Rondônia e Amapá. E uma taxa positiva (em testes) muito elevada, de 54% e 46%, respectivamente. Portanto, outras regiões estão sendo afetadas", afirmou. Ele também insiste que a crise não se limita a Manaus e também atinge outras cidades do estado.

Ryan acredita que, em parte, o que se vê é o resultado do maior contato entre pessoas com as festas de final de ano. Segundo ele, a hospitalização sobe desde meados de dezembro.

"Como no meu país (Irlanda) e em outros, o período de festas de final de ano provavelmente resultaram em muitas pessoas se misturando, como não fizeram antes. Não é inverno nessa parte do mundo. Portanto, não é isso o fator que está impulsionando a situação.

No caso específico de Manaus, ele alerta que existe um risco real de que a onda de contaminação e morte seja superior ao que ocorreu em abril. "400 pessoas estão esperando para ser hospitalizados. O sistema está sob intensa pressão", disse. Mais de 4 mil novos casos são registrados por dia, além de 50 mortes e 2 mil pessoas hospitalizadas.

"Se isso continuar, vamos ter uma onda que pode ser maior que a onda que foi catastrófica em abril e maio, o que é uma tragédia em si mesmo", alertou o representante da OMS.

A falta de oxigênio, material de proteção e luvas é um obstáculo e a OMS aponta para a dificuldade que é transportar os cilindros. Ryan se diz confiante na possibilidade de que o governo federal, estados e mesmo atores internacionais mostrem solidariedade.

Mas não é apenas a questão do oxigênio que preocupa. Segundo ele, funcionários do setor usado para rastrear casos e de laboratórios também estão sendo contaminados pelo vírus. Ryan destaca que isso significa a "implosão" do sistema inteiro e destaca que existe um atraso de sete mil testes para serem realizados de pessoas que aguardam para saber se estão contaminadas.

Para ele, a situação conduz um "espiral negativo", com pessoas em posições fundamentais não tendo condições de trabalhar. Ryan lembra que isso é um cenário já vivido em Nova Iorque ou na Itália.

Segundo o representante da OMS, há um "avanço exponencial do vírus" pelo Mercosul "provavelmente conduzido pelo comportamento (das pessoas), pelo maior contato entre pessoas, menor distanciamento social, fadiga".

No caso específico de Manaus, ele avalia que o sistema de saúde já tinha sido enfraquecido diante da primeira onda de casos e, por estar vulnerável, um segundo golpe foi ainda mais difícil.

Para Ryan, não se deve culpar uma possível variante do vírus. "Não são as novas variantes que estão liderando a transmissão. Elas podem ter esse impacto no futuro. É fácil demais dizer que a culpa é do vírus", disse.

"Infelizmente, é o que também nós não fizemos (que é o culpado). Temos de aceitar nossa parte da responsabilidade, como indivíduos, comunidade ou governo por esse vírus sair do controle. O Brasil está entrando em fase muito difícil", admitiu o representante, mostrando solidariedade com o país.

Manaus é lição ao mundo: pandemia não acabou e não é hora de baixar guarda

Mariângela Simão, vice-diretora da OMS, alertou ainda que Manaus deve "servir de alerta para muitos países". "Temos ao mesmo tempo um ressurgimento de casos e um colapso da estrutura de saúde", disse.

"A pandemia não acabou. Não podemos baixar a guarda", disse. Segundo ela, houve um "enorme colapso" da estrutura sanitária da cidade e que tal cenário já tinha sido identificado em países ricos.

Mas ela lembra que Manaus criou uma estrutura de emergência, na primeira onda da crise. "Mas por um falso sentimento de segurança isso foi abandonado. Esse é um alerta a todos para não abandonar. Se criou uma estrutura de emergência, com UTI, não feche, pois não acabou. Temos de aprender com que ocorre em Manaus. Podemos evitar mais danos se levarmos essa mensagem", insistiu.