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Jamil Chade

Reuniões e dados desmentem fala de Ernesto na CPI

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/05/2021 10h44

O ex-chanceler Ernesto Araújo afirmou na CPI da covid-19, nesta terça-feira, que o Brasil foi o primeiro a receber vacinas da Índia e que o governo atuou desde a definição da Covax da aliança mundial de vacinas, em junho de 2020. Mas os dados se contrastam com a narrativa apresentada pelo ex-ministro.

A primeira reunião da aliança de vacinas ocorreu ainda no mês de abril de 2020, sem a presença do Brasil. No encontro, que foi realizado com a OMS e a UE, nenhum diplomata brasileiro fez parte. Naquele momento, a coluna questionou o Ministério da Saúde sobre a ausência e a explicação foi de que o governo teria "outras alianças" sendo avaliadas. Nunca houve uma explicação sobre quais seriam essas "outras alianças".

Em abril, de fato, a aliança ainda não era conhecida como "Covax". Mas as negociações já existiam, com a participação de governos, inclusive latino-americanos. A ideia do consórcio também já havia sido estabelecida, assim como as regras do que seria a aliança.

Em seu lançamento oficial, em abril, o consórcio contou inclusive com a presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen.

Já Araújo afirmou: "Manifestamos, desde junho de 2020, a intenção de aderir ao consórcio Covax, tão logo essa iniciativa foi definida. E dela participamos desde então".

A representação da América Latina na aliança ficou com Carlos Alvarado, presidente da Costa Rica. Ele pediu o respaldo ao multilateralismo. "O mundo olha aos líderes esperando ação", declarou.

Giuseppe Conte, presidente do Conselho de Ministros da Itália, dedicou a aliança a quem "perdeu a vida ao lutar contra pandemia". "Juntos, vamos conseguir", declarou.

Pedro Sanches, presidente do governo espanhol, usou seu tempo para pedir o "fortalecimento do multilateralismo". "Não há outro caminho", disse.

Também tomaram a palavra na aliança chefes-de-estado e de governo de Uganda, Malásia, África do Sul, Arábia Saudita, Noruega e Reino Unido.

Quase um mês depois, em 18 de maio, uma segunda reunião foi realizada e, mais uma vez, sem a presença do Brasil. Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, comemorou os resultados do encontro. "Líderes de mais de 40 países se uniram", indicou. Segundo ele, o que os governos fizeram foi "demonstrar solidariedade global".

O etíope alertou que existia o potencial de "ondas contínuas" de contaminação do vírus. Nesse contexto, uma vacina é necessária. "O vírus vai estar presente por um longo tempo e precisamos nos unir para dar uma resposta", afirmou.

A aliança, em maio, contou com a liderança da França, Alemanha, Japão, Omã, Noruega, Canadá, Espanha, Reino Unido e Itália. Mas o processo também foi apoiada por China, Jordânia, México, Austrália, África do Sul, Arábia Saudita, Mônaco, Turquia, Suíça, Israel, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Coreia do Sul, Suécia, Dinamarca, Luxemburgo, Hungria, Polônia, República Tcheca, Sérvia, Bulgária, Bélgica, Malta, Áustria, Grécia, Irlanda, Portugal, Estônia, Croácia e Holanda, além do Banco Mundial, Fórum Econômico Mundial e outras instituições. Procurado pela reportagem, o Itamaraty sequer deu uma resposta sobre o evento.

Foi, de fato, em junho que o Itamaraty enviou uma carta à OMS solicitando que a participação do país fosse considerada.

Numa outra carta enviada no final de agosto para as entidades internacionais, o governo indicava que tinha interesse em fazer parte do projeto para adquirir vacinas para o equivalente a 20% de sua população.

Até o início de setembro, porém, o governo não havia definido se aderiria ao projeto, mesmo depois de enviar cartas de interesse à cúpula da OMS. Na véspera do fim do prazo final para a adesão aos contratos, o governo brasileiro ainda avaliava se iria fazer parte da Covax.

Quando foi definida a participação do país, a opção foi por comprar o mínimo de doses autorizadas no mecanismo, o equivalente a 10% da população nacional. A aliança permitiria que governos solicitassem até 50% de cobertura.

O motivo da hesitação se dividia entre a falta de flexibilidade no sistema de compra de vacinas, o valor, a falta de transferência de tecnologia, a baixa adesão de outros países e o fato de o Brasil já ter fechado um acordo à parte para ter a vacina produzida sob supervisão da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e da indústria farmacêutica AstraZeneca.

Durante a CPI, Araújo também não foi transparente em relação ao recebimento de vacinas da Índia. "Graças a nossa qualidade de relações com a Índia, fomos o primeiro país a receber vacinas exportadas por aquele país", disse Araújo na CPI.

Os dados, porém, não se referem à realidade. Ao longo de semanas, o governo indiano enviou doses das vacinas do Instituto Serum para diversos outros países da região asiática, entre eles Butão, Bangladesh e outros quatro países.