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Jamil Chade

Impondo árbitro e taça, o fascismo usou o futebol como instrumento político

O ditador fascista Benito Mussolini, que governou a Itália entre 1922 e 1943 - Getty Images
O ditador fascista Benito Mussolini, que governou a Itália entre 1922 e 1943 Imagem: Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/06/2021 06h07

Política e futebol se misturam. Sempre. Nesta semana, o Brasil revive tal constatação, num esforço que poderia envolver a escolha de técnico para agradar ao presidente da República, a organização da Copa América sobre os corpos de 500 mil brasileiros e um debate sobre o que a camisa amarela mais reconhecida no mundo significaria.

Mas nada disso é novo.

A primeira Copa do Mundo a ser usada abertamente para fins políticos e a ser manipulada foi a de 1934. O ditador italiano Benito Mussolini entendeu que o evento poderia ser um instrumento eficiente de sua propaganda fascista.

Nada melhor que um torneio de dimensões internacionais como veículo para demonstrar ao mundo as identidades nacionais e seus valores. Ou, falando mais francamente, nada melhor que um torneio de dimensões internacionais como veículo para difundir ao mundo identidades manipuladas e valores criados por regimes autoritários.

Il Duce não disfarçava: queria mostrar ao mundo uma "nova Itália", corajosa, vigorosa, fisicamente atraente e, acima de tudo, superior a todos os demais países. Para isso, passou a controlar cada obra e cada detalhe do torneio.

Por ordens suas, não apenas a Jules Rimet seria entregue pela Fifa ao campeão, mas também uma segunda taça, a Coppa Del Duce, bem maior, mais espetacular e mais brilhante que o troféu da Fifa.

O envolvimento do italiano no torneio foi tão grande que até o presidente da Fifa naqueles anos, Jules Rimet, chegou a dizer que quem estava organizando a Copa não era a entidade, "mas Mussolini".

O time italiano não era o melhor do mundo, e o ditador sabia disso. Antes de a Copa começar, Roma "importou" os jogadores argentinos vice-campeões do mundo de 1930 e que tinham origem italiana. Por verdadeiras fortunas, Mussolini levou de Buenos Aires o capitão Luisito Monti, Raimundo Orsi e Enrico Gaita.

A seleção argentina, assim, chegaria esfacelada ao torneio. O Uruguai, campeão de 1930, sequer faria a viagem até a Europa como forma de protestar contra a decisão da Itália de boicotar o evento quatro anos antes em Montevidéu.

Itália escolheu o árbitro de sua própria partida

A Fifa, que se viu refém de um líder fascista, teve de aceitar até mesmo que o italiano selecionasse os árbitros das partidas envolvendo a Azzura. O caso mais polêmico foi a escolha do jovem juiz sueco Ivan Eklind para a partida entre os italianos e a Áustria, o melhor time do mundo na época e sensação do torneio.

O Wunderteam não só não tinha rivais como ainda contava em campo com o "Mozart do Futebol", Mathias Sindelar. Mas o time da casa acabaria vencendo com um gol impedido e foi conduzido à grande final.

Num estádio nacional em Roma convertido em palanque fascista, Mussolini via seu sonho se realizar. No dia 10 de junho de 1934, a Itália enfrentaria a Tchecoslováquia e, para a surpresa da Fifa e dos adversários, o mesmo árbitro sueco que garantiu a vitória dos italianos contra os austríacos, Eklind, seria o juiz da partida decisiva.

Mas nem assim seria fácil. O tempo regulamentar terminaria empatado em 1 x 1. Na prorrogação, Angelo Schiavio marcaria o gol do título. Quando o apito final soou, um país comemorou a conquista e, nos camarotes, Mussolini viu sua estratégia funcionar.

Enquanto a seleção campeã recebia os troféus, o estádio era tomado pela "Giovinezza", o hino fascista. No dia seguinte, um dos jornais italianos trazia em suas páginas uma manchete reveladora da instrumentalização da Copa: "Il Duce congratula os jogadores italianos pela conquista".

Quatro anos depois, em Paris, e enquanto os sons dos tambores da guerra já se podiam escutar, os italianos venceriam uma vez mais o troféu. Dessa vez, Il Duce mandaria um telegrama muito claro a seus jogadores: "Vincere o morire" (vencer ou morrer).

A cobiça de Mussolini pela Copa não acabou nem mesmo durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto o mundo suspendia suas atividades diante da ameaça nazifascista, Il Duce havia ordenado a seus soldados que buscassem e encontrassem a taça Jules Rimet, vencida pela segunda vez em 1938 e que, desde a eclosão do conflito, estava desaparecida.

Anos depois, se descobriria que quem salvou a taça foi o dirigente Ottorino Barassi, que a colocou numa caixa de sapatos debaixo de sua cama. Nem mesmo uma busca realizada pela polícia de Mussolini em sua casa a encontrou e, em 1946, no primeiro congresso da Fifa depois da guerra, o troféu renasceria.

O gesto heroico de Barassi seria recompensado. O italiano se transformaria no vice-presidente da Fifa e, anos depois, seria enviado às pressas ao Brasil para ajudar o país a finalizar os trabalhos para sediar a Copa de 1950.

Futebol e política se misturam. Sempre.

(Amanhã, a coluna traz um relato sobre a relação de Stalin e o futebol)