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Jamil Chade

No exterior, governo omite 500 mil mortos e defende ciência contra covid-19

Marcos Pontes ao lado do presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse -
Marcos Pontes ao lado do presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/06/2021 09h52

Resumo da notícia

  • Na OMS, Marcos Pontes diz que lição da pandemia é de que a ciência é "única arma". Mas ignora estratégia de Bolsonaro por tratamentos sem base.
  • Na ONU, Itamaraty diz que está oferecendo vacinas "para todos" e apresenta plano sobre como salvou 10 milhões de postos de emprego

Com 500 mil mortos, desemprego em alta, a fome de volta à agenda e incapaz de lidar com a crise sanitária, o governo brasileiro opta por vender uma imagem no exterior que não condiz com a realidade do país. Se para o público doméstico o discurso sobre a pandemia é um, as autoridades nacionais usaram as tribunas de organismos internacionais para defender a "ciência" contra o vírus e esconder os atos do presidente Jair Bolsonaro.

Num evento na OMS nesta segunda-feira, o ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, adotou um tom radicalmente diferente da narrativa do governo e do presidente sobre a covid-19. O evento marcou um esforço da OMS para ampliar a produção de vacinas pelo mundo, justamente para garantir maior distribuição e superar a escassez que afeta dezenas de países.

Sem citar em nenhum momento a dimensão da crise brasileira, Pontes usou o palco da OMS para defender a "importância da ciência". Em nenhum momento ele citou a ofensiva do governo na busca de tratamentos sem respaldo da ciência.

"A pandemia tem sido um enorme problema para todos os países e, claro, nos deu importantes lições", disse. "Por exemplo, a importância da ciência como a única arma que temos para lidar contra o inimigo, o vírus", disse.

Pontes também defendeu que países possam "trabalhar juntos" e "congratulou a OMS", contradizendo a postura do governo que, por meses, insistiu que as agências internacionais não deveriam fortalecidas na resposta à pandemia.

Para o representante do governo, uma das lições da pandemia é ainda a importância da produção local de vacinas. O ministro defendeu que haja um "solução regional" na América do Sul para a crise sanitária e apoiou transferência de conhecimento. "Temos de evitar perder tempo, dinheiro e trabalhar juntos podemos ter soluções mais sustentáveis", disse.

A estratégia brasileira: acesso a ingredientes e vacinas é um "problema".

Ao explicar a resposta do governo diante da pandemia, o ministro apresentou uma estratégia ampla. Mas omitiu decisões do governo de não comprar vacinas e gestos do presidente de promover aglomerações e sugerir o fim da máscara.

Segundo Pontes, um dos pilares da resposta seria o lado operacional, liderado pelo Ministério da Saúde e com o apoio do Instituto Butantan e Fiocruz. "Temos um sistema muito bom para entregar vacinas", garantiu.

Pontes, porém, admitiu que "existem problemas em termos de logística das vacinas". "Precisamos ter as vacinas aqui e os ingredientes ativos aqui", disse.

Portanto, para ajudar a superar tal obstáculo, ele cita uma segunda parte da estratégia nacional, que seria o desenvolvimento de tecnologia nacional, com 15 projetos de vacinas em andamento e três deles já em testes clínicos.

Em nenhum momento foi admitido que o governo optou por não comprar vacinas oferecidas e nem ampliar seu envolvimento na Covax, que poderia ter assegurado 86 milhões de doses ao país.


"Vacinas para todos"

Também nesta segunda-feira, o governo brasileiro omitiu em um outro debate na ONU qualquer referência ao fato de o país ter atingindo 500 mil mortes pela covid-19 e insistiu que vem tomando medidas para salvar vidas e renda da população.

Numa reunião no Conselho de Direitos Humanos da ONU, governos de todo o mundo ouviram um recado claro por parte do organismo sobre o fato de que a pandemia tem explicitado a desigualdade. Michelle Bachelet, alta comissária da ONU para Direitos Humanos, alertou que é "papel do estado" dar uma resposta diante da crise.

A participação do Brasil, porém, foi marcada por uma narrativa distante da realidade do país. Ao tomar a palavra, a delegação do Itamaraty na ONU disse que a avaliação da entidade ia na mesma direção da política brasileira de defender o acesso universal à saúde, proteção de vidas e renda, e garantia de direitos de minorias e da população mais vulnerável.

"Desde que pandemia começou, o Brasil forneceu auxilio emergencial para proteger os mais vulneráveis - especialmente os mais pobres e trabalhadores informais, beneficiando 68 milhões de pessoas", disse.

De acordo com ela, mecanismos foram estabelecidos que "salvaram 10 milhões de empregos". "Também promovemos segurança alimentar para povos tradicionais e comunidades durante o distanciamento social", afirmou. A delegação não mencionou os ataques constantes do presidente Jair Bolsonaro contra medidas de confinamento.

"O Brasil oferece vacinas contra a covid-19 de forma universal e gratuita para todos nossos habitantes, incluindo não-residentes, migrantes e refugiados, sem discriminação", declarou.

"Mais de 61 milhões de pessoas receberam pelo menos a primeira dose, com prioridade para indígenas e quilombolas", completou.