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Jamil Chade

Partido alemão que se encontrou com Bolsonaro só é recebido por párias

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

26/07/2021 15h40

Considerado como tóxico, o partido Alternativa pela Alemanha (Afd) passou a ser monitorado em seu país de origem sob a suspeita de tentar desestabilizar a democracia, além de ser recebido apenas por regimes controversos, ditaduras e violadores de direitos humanos.

Mas, na semana passada, o grupo conseguiu um verdadeiro feito diplomático: um encontro com um presidente, no caso Jair Bolsonaro.

Mesmo que tenha sido fora da agenda e divulgado apenas depois do final da viagem, a foto foi recebida no meio diplomático alemão com consternação e decepção em relação ao Brasil. Diversos jornais das principais cidades do país europeu também noticiaram o encontro, num tom de incredulidade.

A coluna apurou que o Itamaraty não foi consultado sobre a visita e que o encontro ocorreu sem o conhecimento da diplomacia.

Partido sob monitoramento

O partido que Bolsonaro recebeu é ainda o primeiro a ser colocado sob vigilância desde 1945 pelo serviço de inteligência doméstica da Alemanha. O motivo: suspeita de tentativa de minar a Constituição democrática da Alemanha.

O AfD conseguiu entrar no Bundestag em 2017, buscando votos da parcela que tinha feito oposição à decisão da chanceler Angela Merkel de receber mais de um milhão de migrantes.

Com o monitoramento, o sistema de inteligência poderá escutar chamadas e conversas envolvendo membros da AfD e examinar o financiamento do partido.

O Conselho Central dos Judeus na Alemanha saudou a decisão. "As políticas destrutivas da AfD minam nossas instituições democráticas e desacreditam a democracia entre os cidadãos", escreveu o grupo.

Avós aliados de Hitler e condenado por crimes de guerra

Beatrix von Storch, a deputada e vice-líder do partido que esteve com Bolsonaro, tem um passado complicado. De um lado, ela é neta do ministro de Finanças de Adolf Hitler por 12 anos e condenado pelo Tribunal de Nuremberg por crimes de guerra. Seu outro avô não era menos conhecido da cúpula nazista e fazia parte da SA, uma milícia paramilitar.

Um encontro de um representante do partido com um líder internacional é raro. Em 2019, membros do grupo estiveram com o governo sírio, em Damasco. O objetivo era o de mostrar que a Síria era um país seguro e que, portanto, a Alemanha não tinha motivo para receber mais refugiados e poderia começar a deportar os estrangeiros, uma das bandeiras do grupo.

Outro destino dos parlamentares alemães é a área ocupada por Moscou na Ucrânia e denunciada como uma anexação ilegal por toda a comunidade internacional.

Markus Frohnmaier, um dos principais nomes do partido, tem feito discursos contra as sanções da UE contra a Rússia, visitou a Crimeia, assim como áreas no leste da Ucrânia controladas por separatistas pró-russos. Mas uma investigação conduzida por jornais alemães revelou que o deputado tem sido usado e controlado pelo Kremlin.

Mesmo assim, neste ano, outra representante do AfD, Alice Weidel, voltou para Moscou para defender o governo de Vladimir Putin contra os questionamentos do Ocidente por seu comportamento contra o opositor Alexei Navalny.

Nos primeiros meses de 2021, ao se reunir para definir sua agenda para a eleição na Alemanha, o partido debateu uma proposta: uma campanha para retirar o país da UE. Na prática, isso significaria o fim da UE.

Já na pandemia, o partido foi duramente criticado ao adotar posturas negacionistas sobre o vírus, lutar contra o confinamento e dizer que o combate à covid-19 deveria ser deixado aos cidadãos, sem a ingerência do estado.