PUBLICIDADE
Topo

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido
Seu cadastro foi concluído!
reinaldo-azevedo

Reinaldo Azevedo

mauricio-stycer

Mauricio Stycer

josias-de-souza

Josias de Souza

jamil-chade

Jamil Chade

Jamil Chade

Talibã vai de casa em casa para caçar "traidores"

19.ago.2021 - Talibã segura arma em cima de veículo em meio à tomada do Afeganistão pelo grupo fundamentalista - Aref Karimi/AFP
19.ago.2021 - Talibã segura arma em cima de veículo em meio à tomada do Afeganistão pelo grupo fundamentalista Imagem: Aref Karimi/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

20/08/2021 06h23Atualizada em 20/08/2021 14h47

Resumo da notícia

  • Informe de inteligência aponta que discurso de moderação do grupo islâmico não condiz com ações pelo país
  • ONU alerta que afegãos não têm, hoje, como sair do país por vias legais

Um informe de inteligência fornecido por parceiros da ONU à entidade internacional revela que, desde que tomou o poder, as milícias do Talibã estão indo casa por casa em busca de pessoas que tenham trabalhado com as forças americanas e da OTAN, além de opositores e ativistas.

Considerados como "traidores" essas pessoas forneceram serviços nos últimos 20 anos para as forças estrangeiras, atuando como intérprete, motoristas e todo tipo de trabalho.

A informação faz parte de um documento elaborado pelo Centro Norueguês de Análises Globais, um dos parceiros da ONU para o fornecimento de inteligência sobre o Afeganistão. Além da caça por opositores, os dados apontam que o grupo fundamentalista estabeleceu check-points no caminho entre Cabul e o aeroporto.

A constatação se contrasta com a promessa do Talibã de que haveria uma anistia a todos no país e que a guerra tinha "terminado". O grupo fundamentalista também indicou que não haveria "revanche" contra indivíduos.

Mas, segundo o informe, a realidade é diferente. Os dados apontam que se pessoas que trabalharam com a OTAN ou EUA não se apresentarem às novas autoridades, eles serão detidos e processados. Se fugirem, seus parentes serão alvos de punição.

A coluna revelou, no início da semana, que um outro informe da ONU indicou que, no avanço do Talibã até Cabul desde meados do ano, crimes de guerra e crimes contra a humanidade foram cometidos. O grupo teria executado e torturado civis que tenham trabalhado para o governo anterior ou potências estrangeiras.

Para os autores do informe, qualquer um que estiver na lista negra do Talibã corre sérios risco de vida e não se descarta execuções em massa.

Afegãos não tem como sair legalmente do país

Nos últimos dias, governos ampliaram os esforços para evacuar uma parte dessas pessoas. De acordo com a OTAN, 18 mil pessoas já foram retiradas do país.

Para a ONU, porém, isso não será suficiente e a população, hoje, não conta com "caminhos legais" para sair do país e pedir refúgio. "Estes programas bilaterais de evacuação não deveriam, no entanto, ofuscar ou substituir uma ação humanitária internacional urgente", insistiu a ONU.

"Aqueles que possam estar em o perigo não tem uma saída clara. O Acnur apela aos países vizinhos do Afeganistão para manterem as suas fronteiras abertas à luz da crise em evolução", defendeu.


Nesta sexta-feira, a entidade alertou que existem 2,9 milhões de pessoas deslocadas internamente no Afeganistão e 2,6 milhões de refugiados pelo mundo. 90% deles estão Paquistão e Irã. Apenas desde o início do ano, o número de pessoas obrigadas a deixar suas casas chegou a 550 mil.

Para o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), não basta apenas evacuar alguns milhares de afegãos. A agência afirmou que está "preocupada" com a crise e pediu que a comunidade internacional não abandone o restante dos afegãos.

O Acnur indica que precisa de US$ 33 milhões para garantir o abastecimento de serviços para essa população mais vulnerável. Mas, por enquanto, recebeu menos de 47% desse valor.

De acordo com a ONU, existem sinais cada vez mais claros de "conflitos generalizados" desde o início da semana.

A porta-voz do ACNUR, Shabia Mantoo, indicou que a situação em todo o país "continua a ser extremamente fluida". "O impacto total ainda não é claro. Muitos afegãos estão extremamente ansiosos sobre o que o futuro nos reserva", disse.

"O apoio reforçado à resposta humanitária no próprio Afeganistão é urgente necessário para prestar assistência ao povo afegão, incluindo cerca de meio milhão deslocados só este ano. A grande maioria dos afegãos não consegue deixar o país através de canais regulares. As imagens do aeroporto chocaram o mundo, mostrando a sensação de medo e incerteza entre muitos afegãos", completou.