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Jamil Chade

Ômicron ameaça abrir nova guerra por vacinas

Entrevista coletiva da OMS em Genebra -
Entrevista coletiva da OMS em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

02/12/2021 04h04

Resumo da notícia

  • Consultoria que presta serviço para farmacêuticas alerta que não haverá doses para todos se variante exigir nova versão de vacinas
  • Temor é de uma repetição da corrida por contratos e doses, deixando os países mais pobres sem acesso
  • Entidades como OMS e Médicos Sem Fronteiras denunciam desigualdade no acesso aos produtos

O setor farmacêutico prevê uma nova guerra por doses de imunizantes se a variante ômicron exigir uma nova vacina. O alerta faz parte de um levantamento publicado pela Airfinity, uma consultoria que assessora as multinacionais do setor de saúde e que, desde o início da pandemia, se consolidou como referência nas projeções sobre a produção de vacinas.

Por enquanto, a OMS (Organização Mundial da Saúde) insiste que novos estudos são necessários para determinar se a variante primeiro alertada pela África do Sul resiste aos efeitos das vacinas que estão no mercado. Mas, num recente documento enviado a governos, a agência admitiu que o risco existe. "Dadas as mutações que podem conferir potencial de fuga imunológica e possivelmente vantagem de transmissibilidade, a probabilidade de propagação potencial da ômicron em nível global é alta", alertou.

Para a indústria, que já administrou quase 8 bilhões de doses de vacinas pelo mundo, a produção de uma nova série de imunizantes não ocorrerá de forma imediata, caso a variante exija uma nova vacina.

De acordo com a previsão da produção de Airfinity, não haverá doses suficientes produzidas para uma implementação global da vacinação até ao final do próximo ano.

"Na melhor das hipóteses, em que todos os produtores de vacinas mudam de instalações de produção e escalam rapidamente, 6 bilhões de doses poderiam ser produzidas até outubro de 2022", aponta.

"Estima-se que as vacinas de mRNA constituirão a maioria das doses, uma vez que podem ser desenvolvidas e escalonadas mais rapidamente", estima.

"A mudança de todas as instalações de produção significará também a desativação da produção atual de vacinas. No cenário de base, em que os fabricantes de vacinas mudam 50% da sua capacidade, a produção não atingirá seis bilhões de doses até janeiro de 2023", alerta a consultoria.

"Embora as novas vacinas possam ser configuradas com relativa rapidez e esperemos ver uma aprovação rápida, não há nenhuma bala mágica para aumentar a produção", estima o CEO da Airfinity, Rasmus Bech Hansen.

"Se precisarmos de uma vacina orientada para a ômicron para manter elevados níveis de proteção, é provável que no início do próximo ano se assista a uma corrida de aquisição de vacinas, semelhante à que testemunhámos no começo de 2021, em que os países estavam a lutar e a competir por uma oferta limitada", alerta o executivo.

"Os nossos dados mostram que a vacinação de todo o mundo contra a ômicron está muito longe", concluiu.

Desigualdade imoral

Se a OMS tentou criar um sistema para garantir a distribuição de doses de vacinas - a Covax - a realidade é que a pandemia revelou uma profunda desigualdade no acesso às doses. Hoje, um ano após a maior campanha de imunização da história, foram dadas 104 doses para cada 100 habitantes do planeta. Mas 80% dessas vacinas ficaram em apenas 20 países, enquanto as 46 economias mais pobres do mundo receberam apenas 0,6% do total fabricado.

Antes mesmo de as vacinas chegarem ao mercado, governos europeus, do Canadá, EUA e outros países ricos compraram doses suficientes para imunizar duas ou três vezes o tamanho de suas populações.

A corrida pelas doses e a atitude dos países ricos chegou a ser denunciado de "imoral" por parte da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Para a entidade Médicos Sem Fronteira, a mutação revela que apenas um acordo para suspender as patentes de vacinas pode dar resposta à crise.

"O recente surgimento de outra nova variante mais transmissível é um exemplo revelador de como este vírus continua a sofrer mutações, particularmente na ausência de acesso equitativo às ferramentas médicas corretas para lidar com ele", disse Candice Sehoma, representa na África do Sul para a MSF. "Com milhões de vidas em jogo, o mundo não pode mais perder tempo. Apelamos aos países que se opõem e diluem esta proposta de suspensão de patentes para que parem hoje as táticas de paralisação e tomem medidas urgentes para adotar uma renúncia abrangente para facilitar uma produção e fornecimento mais diversificado e amplo de vacinas, terapias e diagnósticos e outras tecnologias de saúde".

Mais de 100 nações apoiam o protejo de suspensão de patentes, mostrando que mais da metade dos governos do mundo consideram a adoção e implementação desta proposta como uma ferramenta eficaz contra a covid-19. "Entretanto, devido à oposição de um grupo de países de alta renda que estão atualmente enterrando esta solidariedade global, as negociações continuam a avançar em ritmo glacial", critica a MSF.

"Todos os dias, estamos testemunhando uma necessidade desesperada de ferramentas médicas os locais onde trabalhamos", disse Reveka Papadopoulou, presidente do Centro Operacional de MSF em Genebra. "Dado o acesso severamente limitado aos medicamentos, diagnósticos e vacinas necessários para salvar vidas, é verdadeiramente desmoralizante que alguns governos estejam se opondo a uma iniciativa como essa", completou.