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Jamil Chade

Venezuela usa covid-19 para dizer que seu modelo é superior ao do Brasil

24.mai.2018 - Vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, com Nícolas Maduro no dia do juramento do presidente para seu novo mandato, em Caracas - REUTERS/Marco Bello
24.mai.2018 - Vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, com Nícolas Maduro no dia do juramento do presidente para seu novo mandato, em Caracas Imagem: REUTERS/Marco Bello
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/01/2022 13h30

Numa sabatina na ONU sobre a situação de direitos humanos na Venezuela, o governo de Nicolas Maduro se defendeu de críticas feitas pelo Itamaraty, insinuando que o Brasil não tem legitimidade para questionar outros países diante da crise sanitária no país. Para as autoridades de Caracas, a diferença no número de mortos nos dois países pela covid-19 coloca em questão o modelo brasileiro.

A sabatina ocorreu nesta terça-feira durante a Revisão Periódica Universal no Conselho de Direitos Humanos da ONU. O exercício é aplicado a todos os países e é usado por governos para cobrar mudanças no comportamento de estados.

No caso venezuelano, a própria ONU concluiu uma investigação no ano passado denunciando a repressão por parte das autoridades de Caracas, prisões arbitrárias e mortes, além de censura e tortura.

Ao tomar a palavra, no encontro de hoje, o governo brasileiro afirmou que estava "preocupado com as violações de direitos humanos" em Caracas e que as vítimas continuam sem uma resposta da Justiça.

Nos primeiros anos do governo de Jair Bolsonaro, o Itamaraty assumiu uma postura de ataques frontais contra Maduro, inclusive retirando seus diplomatas do país e deixando de reconhecer a legitimidade das autoridades em Caracas. Com a saída de Ernesto Araújo do Itamaraty, o tom mudou. Mas não deixou de cobrar pelas violações de direitos humanos.

Nesta terça-feira, durante a reunião, o governo brasileiro pediu que Maduro permita que os investigadores da ONU tenham acesso ao país para avaliar a situação de direitos humanos.

O Itamaraty também pediu que sejam dadas condições para uma eleição "livre e justa, restaurando a democracia". O governo brasileiro também cobrou uma "reforma do Judiciário para garantir independência de juízes".

Como resposta, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, optou por atacar o governo brasileiro. Segundo ela, o Brasil é "o epicentro da pandemia da covid-19 na América do Sul". "O Brasil é o terceiro colocado no mundo em termos de casos e mortos, enquanto a Venezuela, com seu modelo para a proteção da vida e saúde dos venezuelanos, está na 76ª posição", disse. "Aqui vemos a diferença dos modelos", afirmou.

Os números de mortos, porém, são fornecidos para a OMS por cada um dos governos. Há quatro anos, no que se refere a outras doenças, a agência de Saúde chegou a admitir que não tinha garantias de que os números refletiam a realidade do país.

Mas a vice-presidente também acusou o governo Bolsonaro de ser "satélite" de outros interesses "hegemônicos", numa referência aos EUA. "Esses países se uniram para penalizar a Venezuela", disse. Nos últimos anos, parte da região formou o Grupo de Lima, uma coalizão para pressionar Maduro e isolar seu regime. "Eles nem sabem o que estão falando", declarou a vice-presidente.

Durante o encontro, o governo de Maduro tentou impedir que um discurso da delegação americana fosse concluído. Ao tomar a palavra, a representante da Casa Branca insistia em denunciar a repressão na Venezuela, com o uso de grupos armados.

Caracas interrompeu o debate, alegando que os americanos usavam uma "terminologia inadequada". "Isso é falta de respeito", disse.

O mesmo comportamento por parte da Venezuela foi registrado quando a delegação de Israel tomou a palavra e denunciou a ligação entre Caracas e "grupos terroristas" no Oriente Médio. "Preciso proteger a dignidade de meu país", disse a diplomacia venezuelana.