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Desmatar Amazônia vai gerar prejuízo de US$ 1 bi por ano para agricultura

28 jul. 2021 - Vista aérea mostra área de desmatamento na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado, em Nova Xavantina, no Mato Grosso - Amanda Perobelli/File Photo/Reuters
28 jul. 2021 - Vista aérea mostra área de desmatamento na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado, em Nova Xavantina, no Mato Grosso Imagem: Amanda Perobelli/File Photo/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

02/05/2022 00h01

O desmatamento na Amazônia irá gerar um prejuízo de mais de US$ 1 bilhão por ano para a agricultura brasileira pelas próximas três décadas, enquanto sua preservação poderia garantir renda. O alerta é da FAO que, em seu informe anual sobre a situação das florestas no mundo, destaca como o desmatamento no Brasil tem sido "significativo".

O informe está sendo publicado num momento em que governos e entidades buscam formas de que compromissos para a manutenção das florestas sejam implementados.

As conclusões, porém, vão no sentido contrário às teses do governo de Jair Bolsonaro, que tem insistido sobre a necessidade de transformar áreas de proteção em locais de exploração econômica. Durante a Conferência do Clima da ONU, em Glasgow no final de 2021, o ministro do Meio Ambiente do Brasil, Joaquim Leite, chegou a dizer que onde há muita floresta há muita pobreza.

Segundo a FAO, modelos de preservação da floresta podem conviver com o combate à pobreza.

A entidade destaca como as florestas cobrem 4,06 bilhões de hectares, 31% da superfície terrestre do mundo. "Mas esta área está diminuindo, particularmente nos trópicos", diz o informe. "A Avaliação Global de Recursos Florestais da FAO estimou que 420 milhões de hectares de floresta foram desmatados (convertidos para outros usos da terra) entre 1990 e 2020", constata.

"Embora a taxa declinou durante o período, desmatamento foi ainda estimado em 10 milhões de hectares por ano em 2015-2020, aproximadamente 0,25%", explica.

Esse desmatamento não foi totalmente acompanhado por um reflorestamento e expansão natural da floresta, estimada em cerca de 5 milhões de hectares por ano durante o mesmo período.

Combinados, três países - Brasil, Canadá e Rússia - abrigam mais da metade (61%) das florestas primárias do mundo.

Segundo a FAO, o Canadá e a Rússia relataram um nível muito baixo de desmatamento entre 1990 e 2020. "Apesar de uma redução geral do desmatamento, no entanto, o Brasil tem experimentado perdas florestais substanciais desde 1990, inclusive de florestas primárias", alertou a FAO.

Lucros e prejuízos

Em seu informe, a FAO aponta como diferentes estudos revelam que o desmatamento no Brasil terá um impacto negativo para os lucros dos agricultores no país nos próximos anos, enquanto a preservação poderá permitir a geração de renda.

"As quedas de chuvas ligadas ao desmatamento no sul da Amazônia brasileira poderiam causar perdas agrícolas - por exemplo, quedas na produção de soja e pecuária - avaliadas em mais de US$ 1 bilhão por ano entre agora e 2050", diz a FAO.

A entidade, ao apresentar esse número, cita um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais, da Universidade Federal de Viçosa e da Universidade de Bonn (Alemanha). Estiveram envolvidos na avaliação os pesquisadores Argemiro Teixeira Leite Filho, Britaldo Silveira Soares Filho, Juliana Leroy Davis, Gabriel Medeiros Abrahão e Jan Börner.

De acordo com a FAO, vários estudos mostraram que o aumento da produtividade das terras agrícolas e da pecuária, combinado com políticas públicas e de mercado adequadas, poderia ajudar a estabilizar a fronteira florestal na Amazônia brasileira.

De fato, a instituição destaca que a redução na taxa de desmatamento de mais de 80% alcançada entre 2004 e 2014 no Brasil foi atribuída a uma combinação de políticas governamentais (por exemplo, reforço da aplicação da lei), intervenções na cadeia de suprimentos (incluindo compromissos privados sobre soja e gado), e mudanças nas condições de mercado.

A entidade também insiste que preservar a floresta faz sentido econômico ao país e que, segundo estudos, a preservação de um hectare garantiria uma renda de 800 dólares por por ano na Amazônia brasileira.

"O custo de oportunidade da conservação das florestas sobre a receita agrícola obtida das terras desmatadas é um fator chave para avaliar o potencial de instrumentos projetados para agregar valor às florestas", diz.

Usando dados de censo e desmatamento para municípios da Amazônia Legal brasileira, um estudo de 2018 realizado por Figueiredo Silva e outros pesquisadores estimaram o preço da redução do desmatamento em termos de renda agrícola perdida em menos US$ 797 em PIB agrícola anual por hectare de floresta conservada.

Indígenas e pequenos agricultores: chave para preservar

De acordo com a FAO, o mundo não conseguirá promover uma economia saudável em um planeta insalubre. "A deterioração ambiental está contribuindo para a mudança climática, a perda da biodiversidade e o surgimento de novas doenças. As florestas e as árvores podem desempenhar papéis cruciais para enfrentar essas crises e avançar em direção a economias sustentáveis", diz.

Segundo a entidade, três caminhos envolvendo florestas e árvores podem apoiar a recuperação econômica e ambiental. Eles são

(1) deter o desmatamento e manter as florestas;
(2) restaurar as terras degradadas e expandir a agroflorestação; e
(3) utilizando de forma sustentável as florestas e construindo cadeias de valor verdes.

"O mundo precisará de mais materiais renováveis por causa de uma população crescente e da necessidade de reduzir os impactos ambientais. O setor florestal pode e deve impulsionar uma transição para o uso mais eficiente e circular de biomateriais com maior valor agregado", defende.

A FAO também defende que produtores florestais e agrícolas sejam alvo de mais incentivos para aumentar a recuperação verde.

Mas atingir os três caminhos sugeridos vai exigir mudanças em políticas públicas.

"São necessárias mudanças nas políticas para desviar os fluxos financeiros das ações que prejudicam as florestas e para incentivar o investimento em conservação, restauração e uso sustentável", disse.

Na avaliação, o financiamento dos três caminhos florestais precisa triplicar pelo menos 200 bilhões de dólares por ano até 2030 para atender às metas de neutralidade climática, de biodiversidade e de degradação da terra.

Uma das apostas seriam os pequenos proprietários, comunidades locais e povos Indígenas. Juntos, eles possuem ou administram quase metade - 4,35 bilhões de hectares - das paisagens florestais e agrícolas do mundo e irão ser "crucial para a ampliação da implementação dos caminhos" propostos pela FAO.

De acordo com uma estimativa, os pequenos proprietários em tais terras geram uma renda bruta anual de até 1,29 trilhão de dólares. "Existem agora mais de 8,5 milhões de organizações de produtores para ajudar os atores locais a participar e apoiar uma recuperação verde", completa.