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Jamil Chade

ONU cita envolvimento russo em crimes; Brasil evita criticar Moscou

4.set.2019 - A chilena Michelle Bachelet, Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, durante entrevista coletiva em Genebra - Fabrice Coffrini/AFP
4.set.2019 - A chilena Michelle Bachelet, Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, durante entrevista coletiva em Genebra Imagem: Fabrice Coffrini/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/05/2022 05h38

Num discurso realizado na manhã desta quinta-feira em Genebra, a Alta Comissária da ONU (Organização das Nações Unidas) para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, sugeriu que grande parte dos crimes cometidos na Ucrânia parece ser de responsabilidade dos russos. A versão se contrasta com a narrativa de Moscou e desmente a versão do Kremlin que não ataca alvos civis e difunde notícias em suas redes sociais e imprensa sobre o suposto envolvimento de ucranianos na morte da população local.

A declaração de Bachelet foi realizada durante a abertura da reunião de emergência do Conselho de Direitos Humanos da ONU, convocada para lidar com a situação da guerra. Segundo ela, a ONU "continua a verificar alegações de violações do direito internacional de direitos humanos e do direito humanitário internacional, muitas das quais podem equivaler a crimes de guerra".

Suspenso de sua vaga no Conselho, o governo russo poderia participar da reunião como observador ou parte implicada no debate. Mas Moscou optou por sequer estar na sala.

Ainda nesta quinta-feira, uma resolução será votada no Conselho, pedindo investigações sobre regiões específicas que foram controladas por tropas russas.

Nos últimos dias, o Itamaraty trabalhou para esvaziar trechos do documento que colocavam pressão sobre a Rússia. Mas suas sugestões foram ignoradas em diversas partes do texto.

Fontes admitiram que, ainda assim, o Brasil poderá dar seu apoio ao projeto. Mas pedirá a palavra para explicar sua posição. .

Num discurso nesta manhã, o embaixador do Brasil na ONU, Tovar Nunes, não citou uma só vez a palavra "Rússia" diante do Conselho. Enquanto a delegação da Argentina pedia o "fim da invasão russa", o Brasil insistiu em pedir que as alegações de crimes sejam investigadas "de forma independente" e rápida para que as responsabilidades pudessem ser determinadas.

Ainda sem citar o governo russo de Vladimir Putin, o Brasil pediu que "todos" cooperem com as investigações conduzidas pela ONU e que o grupo encarregado pela apuração traga resultados precisos e que não sejam enviesados.

Para o governo brasileiro, a "imparcialidade e objetividade" precisam imperar no trabalho do Conselho.

Em seu discurso, o Brasil ainda fez um apelo para que as negociações sejam retomadas na busca de um cessar-fogo e alertou sobre o risco de que medidas aprofundem a tensão.

O governo ainda pediu que espaços sejam preservados para que um diálogo possa ocorrer entre as partes, "evitando medidas que possam polarizar o debate e exacerbar o conflito".

Responsabilidade russa

Mas os relatos da ONU nesta quinta-feira revelam que os crimes se acumulam. De acordo com Bachelet, os números reais de mortos provavelmente são consideravelmente mais altos que o que se conhece até este momento. "Em áreas de hostilidades intensas - notadamente, Mariupol - tem sido difícil para meu pessoal ter acesso e obter e corroborar informações", explicou.

Segundo ela, a maioria das mortes é causada por armas explosivas com efeitos de área ampla em áreas povoadas, por bombardeio de artilharia pesada, incluindo sistemas de foguetes de lançamento múltiplo, e ataques aéreos e de mísseis.

"De acordo com nossas informações, embora tais incidentes possam ser atribuídos a ambas as partes do conflito, a maioria dessas baixas parece ser atribuída às forças armadas russas e grupos armados afiliados", denunciou.

Bachelet ainda destacou como sua missão visitou 14 cidades e aldeias nas regiões de Kiev e Chernihiv que, até o final de março, eram controladas pelas forças armadas russas.

"Até hoje, mais de 1.000 corpos civis foram recuperados somente na região de Kiev. Algumas dessas pessoas foram mortas em hostilidades, outras parecem ter sido sumariamente executadas", disse.

"Outras ainda morreram devido ao estresse à sua saúde causado pelas hostilidades e pela falta de assistência médica. Eles passaram semanas em porões sendo ameaçados por soldados russos com abuso ou morte se tentassem sair, colocando assim estes indivíduos em grave risco devido às hostilidades", disse.

Ela destacou que, na aldeia de Yahidne na região de Chernihiv, 360 residentes, incluindo 74 crianças e 5 pessoas com deficiências, foram forçados pelos russos a permanecer por 28 dias no porão de uma escola que estavam usando como base. "O subsolo estava extremamente superlotado. As pessoas tinham que sentar-se durante dias sem oportunidade de deitar-se. Não havia instalações sanitárias, água ou ventilação. Morreram 10 pessoas mais velhas", lamentou.

Ela ainda apontou que a "escala de mortes ilegais, incluindo acusações de execuções sumárias em áreas ao norte de Kiev, é chocante".

"Embora tenhamos informações sobre 300 desses assassinatos, os números continuarão a aumentar à medida que novas provas se tornarem disponíveis. Estes assassinatos de civis muitas vezes pareceram ser intencionais, realizados por franco-atiradores e soldados", contou.

Segundo ela, os civis foram mortos ao atravessar a estrada ou ao deixar seus abrigos para buscar comida e água. Outros foram mortos quando fugiam em seus veículos. "Homens desarmados eram mortos porque os soldados russos suspeitavam que eles apoiavam as forças ucranianas ou que eram uma ameaça potencial, e alguns eram torturados antes de serem mortos", denunciou Bachelet.

"Na aldeia de Katiuzhanka, região de Kyiv, um jovem casal, sua filha de 14 anos e um avô foram mortos a tiros por soldados russos enquanto tentavam dirigir até sua casa. Os pais foram mortos, enquanto a criança recebeu dois ferimentos de bala", disse.

Horror em Mariupol

A representante da ONU também destacou como a cidade de Mariupol e seus habitantes sofreram "horrores inimagináveis desde o início do ataque armado da Federação Russa".

"Estou chocado com a escala da destruição e as numerosas violações do direito internacional dos direitos humanos e do direito humanitário internacional que têm sido cometidas na cidade, incluindo ataques contra civis e objetos civis. Uma cidade outrora próspera está em ruínas", lamentou.

"Estimamos que o número de mortos civis em Mariupol seja de milhares, enquanto somente com o tempo a verdadeira escala de atrocidades, baixas e danos se tornará clara", admitiu.

Bachelet também destacou alegações de violência sexual e verificou dúzias de casos em todo o país. "Estou preocupado com alegações de violência sexual que surgiram de áreas da região de Kiev que antes estavam sob o controle das forças armadas russas", disse. "Houve casos de estupro e assassinato de vítimas ou de seus parentes", relatou, indicando que também existem indícios de homens e meninos sendo afetados.