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Jeferson Tenório

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Postura de Gusttavo Lima é resultado do discurso bolsonarista sobre cultura

27.dez.21 - O cantor Gusttavo Lima durante show no Rio de Janeiro - Roberto Filho / Brazil News
27.dez.21 - O cantor Gusttavo Lima durante show no Rio de Janeiro Imagem: Roberto Filho / Brazil News
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Jeferson Tenório

Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre, é doutorando em teoria literária pela PUCRS. Estreou na literatura com o romance O beijo na parede (2013), eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. É autor também de Estela sem Deus (2018). O avesso da pele (2020) é seu romance mais recente, publicado pela editora Companhia das Letras.

Colunista do UOL

06/06/2022 04h00

Não somos um país que tenha uma tradição de educação mediada por livros. Para começar nossas universidades são recentes, se comparadas a outros países. Somos uma nação de poucos leitores. Neste sentido, talvez a música tenha ocupado justamente esse espaço de educação sentimental e estética dos brasileiros que não tiveram acesso ao ensino formal ou de qualidade.

Sou um exemplo disso. Estudei em escolas públicas. Cresci numa casa com poucos livros. E os que tínhamos não serviam para leitura, mas cumpriam uma outra função: segurar o pé da mesa, serviam como decoração ou às vezes como brinquedo. Não tínhamos o hábito da leitura. No entanto, a música muito rapidamente passou a ocupar um espaço importante em minha formação. Meu letramento estético se deu pela música. Lembro de aos 12 anos ouvir "Bem que se quis" da Marisa Monte e ter me comovido por algum motivo, na época eu era uma criança e, portanto, não compreendia muito o que a letra significava, mas sabia que de algum modo eu era tocado por ela.

No entanto, foi com o "Rap da diferença" e o "Rap do Silva", nos anos de 1990, que comecei um outro tipo de educação. Algo voltado para um discurso mais politizado e consciente. Mais adiante, já na vida adulta, conheci as letras dos Racionais Mc's. Arrisco dizer que todas as músicas de que eu gostava, no fundo, contavam a mesma história. Desde "O homem na estrada" até o "Da ponte pra cá" eram músicas sobre jovens negros numa sociedade racista. Era sobre corpos negros que eram incompatíveis com o mundo branco. Os Racionais me davam coragem. Tudo que eles queriam nas músicas era o que eu queria também. Saíamos com walkman nos ouvidos e a voz de Mano Brown nos dizendo que o mundo nos pertencia. Estávamos tomando o que era nosso. Além disso, eu aprendia, sem me dar conta, noções de poesia, de ritmo, de versos e rimas. Eu já gostava de poemas e não sabia.

Tudo isso para dizer que talvez a música tenha um poder muito maior em nossa educação. Num país com um baixo índice de leitura, a música se coloca como esse lugar de educação sentimental. Não é à toa que o sertanejo tem feito tanto sucesso. Com uma proposta de letras simples e fáceis de decorar, o estilo ganha público ao retratar situações, em sua maioria, de relações afetivas contemporâneas. O sertanejo representa as relações de um certo tipo de grupo que vê nessas músicas regadas a cervejas, bebedeiras, dor de cotovelo e vinganças afetivas um espelhamento de si mesmo.

Diferente do rap e do funk que historicamente sempre foram alvos de criminalização, os cantores sertanejos se colocam num lugar alinhado com propostas conservadoras. Representando a música dos homens de bem. Dos pais de família. A vinculação da música sertaneja com o agronegócio e o discurso ultradireitista bolsonarista compõe um cenário que mascara as verdadeiras intenções desse combo: se beneficiar do dinheiro público. Sem entrar nos méritos da qualidade estética duvidosa das músicas de Gusttavo Lima, o fato é que seu discurso sobre o que significa o uso do dinheiro público é no mínimo contraditório e comprova o desconhecimento de como funcionam as leis como a Rouanet.

Na mira do Ministério Público do Estado de Roraima, para averiguar a contratação de R$ 800 mil para apresentação de um show, Gusttavo Lima se defende dizendo que tem orgulho de não aceitar dinheiro público vindo da Lei Rouanet. Além disso, o Ministério Público de Minas Gerais também abriu uma ação para investigar o cachê do autor na cidade de Conceição do Mato Dentro. Valores altos para cidades pequenas financiadas pelos cofres públicos.

As críticas à Lei Rouanet e endossadas por alguns artistas sertanejos entram em contradição com a ideia de lisura e honestidade que tanto defendem. Justamente porque sem a lei Rouanet, a contratação desses cantores não passa por nenhuma avaliação técnica da Secretaria de Cultura. Além disso, não há limites para o pagamento de cachês. E quem escolhe os shows (escolha muitas vezes influenciada por um gosto pessoal dos gestores) nesse caso, é a prefeitura e não uma comissão técnica e especializada.

O fato é que o sertanejo movimenta milhões e faz parte da cultura brasileira. Tem um papel importante na educação estética e sentimental da população, no entanto, é preciso compreender o quão nocivo é este discurso contra projetos e leis que buscam qualificar o mercado de entretenimento e cultura no Brasil. A postura de Gusttavo Lima é o resultado do discurso bolsonarista contra a cultura.