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Sabotagem virou muleta multiuso da era Bolsonaro

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Imagem: Reprodução
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/01/2020 04h00

Quem não consegue acreditar nas coisas em que Jair Bolsonaro acredita não imagina o que está perdendo com seu ceticismo. A metafísica é sempre mais divertida do que esse materialismo tedioso que inspira enredos factuais, nos quais o pau é sempre pau, a pedra é invariavelmente pedra e o Abraham Weintraub é inapelavelmente um ministro inadequado. Teorias conspiratórias são bem mais criativas. Quem resiste a elas acaba se privando dos prazeres que um bom romance pode proporcionar.

No país que se deixa guiar apenas pelos fatos, o Enem virou uma lambança porque Weintraub fez opção preferencial pela inépcia. No Brasil do romance de Bolsonaro, a coisa é mais emocionante. "Nós sabemos que tudo está na mesa", declarou o capitão nesta terça-feira, após retornar da Índia. Você já tem uma opinião formada. Bolsonaro ainda faz concessões à dúvida.

"Eu não quero me precipitar e dizer o que deve ter acontecido com Enem", afirmou o presidente. Para ele, há um leque de possibilidades. Pode ter sido "falha nossa", "falha humana" ou "sabotagem". É curioso notar a forma como o presidente distingue a "falha nossa" da "falha humana". É como se Bolsonaro acomodasse os membros do seu governo num patamar acima do nível em que se encontram os reles mortais que compõem a clientela do serviço público.

Nesse contexto, a hipótese de "sabotagem" compõe o quadro de alternativas para poupar os semideuses do governo do dissabor de ter que admitir que também estão sujeitos à condição humana. Numa entrevista que concedera na Índia, o capitão já havia declarado que "erros no Enem, sempre há." Afirmara também que Weintraub é um ministro "extremamente competente".

Não é à toa que Bolsonaro implica tanto com a imprensa. São muito chatos os jornalistas que insistem em adequar as aparências do Brasil romanceado à realidade do país sem romance. Uma imprensa que adaptasse a realidade às aparências converteria a ficção em versão oficial.

Nessa versão, Weintraub seria um ministro de mostruário submetido a emboscadas de esquerdistas inescrupulosos. Coisa bem mais divertida do que ter que concluir que o vocábulo "sabotagem" virou uma espécie de muleta multiuso da era Bolsonaro.

Josias de Souza