PUBLICIDADE
Topo

Bolsonaro socorre por pressão patrícios que abandonaria na China por opção

Coronavírus
Imagem: Coronavírus
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/02/2020 03h37

Jair Bolsonaro assistia ao drama dos brasileiros assediados pelo coronavírus na China com a insensibilidade de um comandante que abandona sua tropa em situação adversa. Conversou com os repórteres duas vezes. Em ambas expôs sua resistência à ideia de resgatar os patrícios em apuros. De repente, caiu-lhe a ficha. Em pleno domingo, o capitão teve de fazer por pressão o que deixara de providenciar por opção. Ordenou a montagem de uma operação para resgatar os brasileiros que estão em Wuhan, na China.

Apenas 48 horas antes, o mesmo Bolsonaro empilhava diante de repórteres céticos os pretextos que o impediam de enxergar o óbvio: dificuldades de logística, falta de verba, ausência de autorização do Congresso para realizar despesa extra, inexistência de previsão legal para impor uma quarentena aos resgatados, isso e aquilo. Declarou que não repatriaria ninguém "se não estiver tudo redondinho no Brasil." Pressionado, Bolsonaro executou algo parecido com um cavalo de pau.

O capitão tocou clarins nas redes sociais para informar que "serão trazidos em segurança para nós" todos os brasileiros que estiverem no epicentro chinês do coronavírus e "manifestarem desejo de retornar." Sumiu sem deixar vestígios aquele presidente que há apenas dois dias encostava sua inação num lero-lero sobre o risco de contágio: "Se lá [na China] temos algumas dezenas de vidas, aqui temos 210 milhões de brasileiros."

Nem sinal daquele personagem sensível como um pedregulho que desdenhara no início da semana passada do sofrimento de um casal brasileiro que amargava isolamento hospitalar nas Filipinas porque a filha de dez anos apresentava os sintomas do coronavírus. "Pelo que parece, tem uma família na região onde o vírus está atuando. Não seria oportuno retirar de lá. É o contrário. Não vamos colocar em risco nós aqui por uma família apenas."

No intervalo entre o sumiço daquele Bolsonaro que enxergava o padecimento alheio sob a lógica redutora do vocábulo "apenas" e o surgimento deste presidente preocupado em trazer os cidadãos brasileiros "em segurança para nós" ocorreram fatos constrangedores. Afora as críticas que trovejaram no noticiário e os raios que o partam despejados nas redes sociais, Bolsonaro foi como que contraditado por Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre.

Presidentes da Câmara e do Senado, Maia e Alcolumbre insinuaram que o governo não precisa do Congresso para socorrer os brasileiros em apuros na China. Ainda assim, imunizaram-se contra a terceirização de responsabilidades colocando-se à disposição para aprovar a toque de caixa medidas que Bolsonaro julgasse necessárias.

De resto, Bolsonaro foi abalroado no domingo nublado de Brasília por um vídeo levado ao ar na vitrine do You Tube. Nele, dez jovens brasileiros retidos na cidade chinesa de Wuhan se revezam na leitura de uma "carta aberta" dirigida ao presidente e seu chanceler Ernesto Araújo. Pedem para ser resgatados. Declaram-se dispostos a arrostar uma quarentena no Brasil. Realçam que cidadãos dos Estados Unidos, Itália, França, Reino Unido e Japão já foram levados de volta para seus países —evidência de que a China não opõe resistência à repatriação.

Supremo constrangimento: duas brasileiras que viviam em Wuhan e possuem também a nacionalidade portuguesa conseguiram embarcar num voo providenciado pela França para recambiar cidadãos da União Europeia. A dupla enfrentará a quarentena em Portugal. Tudo isso dois dias depois de o chanceler Ernesto Araújo ter declarado, ao lado de Bolsonaro, que as fronteiras de Wuhan estão fechadas. A retirada dos brasileiros envolveria intrincadas negociações. "Não é uma coisa óbvia e imediata", dissera Araújo.

Se Bolsonaro tivesse acomodado no Itamaraty um verdadeiro chanceler, não um áulico, talvez não tivesse que passar pela vergonha de esbarrar no óbvio, tropeçar no óbvio e passar adiante, sem suspeitar que o óbvio era o óbvio. Estava na cara que o abandono dos brasileiros em apuros na China exporia Bolsonaro no estrangeiro como um troglodita incapaz de perceber que um presidente é mais do que uma faixa. É preciso que por trás do pedaço de pano e da pose exista uma noção qualquer de honra e solidariedade.

Josias de Souza