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E se Guedes fosse uma empregada doméstica?

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

13/02/2020 23h45

Muita gente que ouviu o penúltimo desastre verbal de Paulo Guedes ficou tentada a viver no país que ele descreveu, seja lá onde for. Com dólar a R$ 1,80 ou acima de R$ 4,30, o Brasil descrito pelo ministro não existe. Esse país em que, dependendo da cotação do câmbio, as empregadas domésticas são compelidas a optar entre uma visita ao Mickey Mouse na Disneylândia ou um final de semana numa praia nordestina é ficção.

No Brasil real, empregadas domésticas flertam com o desemprego. A maioria das que conseguem arranjar trabalho não tem registro em carteira. E recebe rendimento médio de R$ 897, segundo o IBGE. Isso é menos do que o salário mínimo. Quer dizer: não sobra dinheiro para a viagem. O que sobra é mês no fim do salário. Com suas declarações preconceituosas, o ministro da Economia não leva pobre ao exterior, mas empurra o Banco Central para o mercado, forçando-o a atuar quando a cotação do dólar bateu em R$ 4,38.

Paulo Guedes não é um neófito. Egresso do mercado, ele sabe que os especuladores estão sempre a postos para transformar arroubos ministeriais em lucro fácil. Deveria parar de fornecer material. Falou sobre câmbio, que no Brasil é flutuante e está sob a responsabilidade do Banco Central. Liberal, deu palpites preconceituosos e desnecessários sobre o modo como trabalhadoras pobres devem aplicar um dinheiro que não possuem.

O ministro da Economia exagera nos tropeços verbais. Já ecoou Jair Bolsonaro para chamar de feia Brigitte Macron, a mulher do presidente da França. Levou aos lábios uma sigla tóxica: AI-5. "Não se assustem se alguém pedir o AI-5", ele disse. Forneceu munição aos inimigos da reforma administrativa ao chamar servidores de "parasitas" em timbre genérico. Agora, se aventura no campo social.

A reiteração vai transformando o que parecia ser uma sequência de deslizes verbais num caso de incompetência. Se Paulo Guedes fosse uma empregada doméstica seria do tipo que coloca sal numa lata de açúcar onde está escrito café.

Josias de Souza