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Bolsonaro vive a síndrome do que ainda está por vir

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/02/2020 22h48

Jair Bolsonaro dispõe de uma vacina capaz de imunizá-lo contra a radioatividade do cadáver do miliciano Adriano da Nóbrega. Basta o presidente reconhecer a natureza criminosa das atividades do morto, desqualificando a biografia dele e a dos seus comparsas do escritório do crime, organização que chefiava no Rio de Janeiro. Mas Bolsonaro parece não ter condições de se imunizar com essa vacina. Por isso, o presidente prefere injetar no caso do miliciano o vírus da confusão.

Sem que ninguém perguntasse, Bolsonaro colocou em dúvida a perícia que ainda nem foi feita nos celulares apreendidos em poder do morto. O presidente pergunta: "Será que essa perícia poderá ser insuspeita?" Ele insinua: "Não queremos que sejam inseridos áudios no telefone de conversações no WhatsApp". Bolsonaro vai ao ponto: "Se uma pessoa for atingida, que pode ser eu, apesar de ser presidente da República, quanto tempo teria para ser feita uma nova perícia?"

O pano de fundo desse caso não é bonito. Nele estão gravadas as figuras de Fabrício Queiroz, o faz-tudo da família Bolsonaro, que foi colega na PM do miliciano Adriano, que foi defendido por Jair Bolsonaro na Câmara e homenageado por Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio. A mãe e a mulher do bandido foram acomodadas na folha salarial rachadinha do gabinete de Flávio. Agora no Senado, o filho do presidente se dedica a levantar a suspeita de que o miliciano foi executado e torturado. Flávio é ecoado pelo pai. Subitamente, os membros da família Bolsonaro se convertem em defensores dos direitos humanos.

O presidente deve saber o tamanho do buraco que o assedia. Seja qual for a dimensão do buraco, ele se tornará um problema enorme se passar a influenciar o rumo do governo. No momento, há uma economia andando de lado, uma reforma tributária por ser votada no Congresso e uma reforma administrativa que ainda nem seguiu para o Legislativo.

Num instante em que o governo precisa de paz, Bolsonaro gerencia a morte de um miliciano e compra briga com duas dezenas de governadores. Um presidente que age assim, parece tomado pelo pior tipo de medo. Bolsonaro vive a síndrome do que está por vir. Revela-se capaz de tudo, menos de explicar com desassombro suas relações com o miliciano.

Josias de Souza