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Bolsonaro não governa a crise, é governado por ela

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/04/2020 00h36

Jair Bolsonaro é o tipo de pessoa que reclama do barulho quando a oportunidade bate à sua porta. A crise do coronavírus representou um convite para que Bolsonaro decidisse, finalmente, se queria ser o presidente ou estorvo do seu governo. Bolsonaro comporta-se como se tivesse optado pela segunda alternativa. Politicamente isolado, o presidente faz uma aliança preferencial com o desastre.

A coisa poderia estar bem melhor para Bolsonaro, pois o Datafolha informa que subiu para 76% a taxa de aprovação do modo como o seu ministro da Saúde, Henrique Mandetta, conduz a crise do coronavírus. Mas o presidente decidiu acentuar o processo de autodestruição em que se meteu. Critica a tática do isolamento social, avalizada pela pasta da Saúde. Ele humilha seu ministro com ataques em público. O resultado é devastador: 51% dos brasileiros avaliam que Bolsonaro mais atrapalha do que ajuda na guerra contra o vírus.

Trancado em seus rancores, Bolsonaro finge que faz e acontece. Mas um presidente que mantém a caneta no bolso depois de desqualificar seu ministro e de ameaçar abrir com um decreto o comércio fechado por governadores... um presidente assim apenas simula uma força que já não possui. Bolsonaro começa a ter dificuldades para projetar a simbologia do poder.

A verdade é que a margem de manobra de Bolsonaro é cada vez mais estreita. Agarrado a ideias próprias, o presidente isolou-se no seu bunker. E conspira para a sua própria deterioração. Ao abdicar do dever funcional de governar a crise, Bolsonaro passou a ser governado por ela.

Josias de Souza