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Bumbo do Planalto desafia a paciência dos pobres

Pollyana Ventura - iStock
Imagem: Pollyana Ventura - iStock
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/04/2020 20h05

O Planalto bateu bumbo nas redes sociais: "O auxílio emergencial de R$ 600 por pessoa não é de prefeituras nem governos estaduais. O auxílio emergencial é fornecido pelo governo federal..."

Sem bumbo, o governo federal tarda e falha na distribuição do dinheiro do vale coronavírus. Tardou por conta do negacionismo de Jair 'Gripezinha' Bolsonaro. Falhou porque oferece tortura a quem precisa de comida.

O dinheiro deveria abastecer a mesa de brasileiros pobres durante o isolamento. Entretanto, começou a ser liberado apenas nesta quinta-feira. A essa altura, o estômago devolveu muita gente às ruas. O vírus é menos pior do que a fome.

Nem todos os beneficiários do socorro foram identificados. Muitos dos que tentaram se apresentar foram barrados porque o CPF está bichado. Resultado: formaram-se em várias cidades filas enormes nos guichês da Receita Federal.

Repetindo, o socorro que serviria para manter as pessoas em casa produziu contagiosas aglomerações. A tortura talvez fosse atenuada se o governo substituísse o CPF pelo NIS (Número de Identificação Social).

O bumbo do Planalto pode sair pela culatra. Por enquanto, encosta em Bolsonaro não os R$ 600, mas o desafio à paciência dos pobres. Primeiro. a demora. Depois, a tentativa de limitar o vale a R$ 200. Agora, a burocracia tóxica.

Alguém já disse que, com boa propaganda, as pessoas acreditam até em ovo sem casca. Com o estômago vazio, porém, a credulidade tem limite.

Josias de Souza