PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Bolsonaro se arrisca a empurrar Moro para as urnas

Foto: Dida Sampaio/Estadão
Imagem: Foto: Dida Sampaio/Estadão
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

24/04/2020 02h31

Jair Bolsonaro disputa com o coronavírus o potencial de disseminação de infecções. O presidente contaminou com o vírus do desprestígio os dois ministros que já foram pilares do governo: Paulo Guedes e Sergio Moro. O titular da Economia está na enfermaria. O chefe da pasta da Justiça foi para a UTI. Bolsonaro realiza um movimento de alto risco. Depois de entubado, Moro pode migrar da condição de ministro com poderes amputados, sem o controle da Polícia Federal, para a de pré-candidato vitaminado às eleições presidenciais de 2022.

Moro e Guedes contribuíram para a própria perda de prestígio. Esqueceram de se imunizar traçando uma linha a partir da qual não aceitariam interferências de Bolsonaro na autonomia que lhes foi prometida. Guedes vê a sua agenda liberal tisnada pelo esboço de um plano que tem a cara do velho PAC do do PT. Moro assiste a uma intervenção na PF que nem o PT conseguiu operar. Bolsonaro se afasta do ex-juiz de Curitiba e encosta o seu governo numa clientela da Lava Jato, abrigada no centrão. Moro está sendo como que empurrado para a urna.

Guedes e Bolsonaro já não dançam a mesma música faz tempo. Mas ainda podem realinhar a coreografia. O que vem por aí, no Brasil pós-coronavírus, é uma recessão pandêmica. Ao terceirizar aos governadores a culpa pela ruína, Bolsonaro namora com o brejo. E será plenamente correspondido se não der mão forte ao seu ministro da Economia. A situação de Moro é outra. A família Bolsonaro já se encontra no pântano. E o presidente cultiva a ilusão de que, aplicando um sedativo na PF, conseguirá afastar a corporação dos calcanhares de vidro do seu clã.

Depois de ejetar da pasta da Saúde Henrique Mandetta, cuja atuação era aprovada por sete em cada dez brasileiros, Bolsonaro parece ter perdido o medo de fustigar ministros populares. Esquece um detalhe crucial: Mandetta viralizou como celebridade instantânea graças à habilidade no trato com a pandemia. A popularidade de Moro é de outro tipo, mais perene. O prestígio do ex-juiz, ao redor dos 50%, sobreviveu à Vaza Jato. Sua saída do governo tem potencial para instalar um dreno no bolsonarismo, ainda fortemente ligado à simbologia da Lava Jato.

No momento, a PF representa risco para a dinastia Bolsonaro em três níveis. Achega-se ao Zero Um Flávio no caso em que se misturam a rachadinha, o faz-tudo Queiroz e o miliciano Adriano. Fareja o Zero Dois Carlos e o Zero Três Eduardo num inquérito sobre fake news. Roça o próprio gabinete presidencial no recém-inaugurado inquérito sobre a manifestação antidemocrática de domingo passado, ornamentada com o discurso em que Bolsonaro falou sobre "patifaria", sobre "velha política" e sobre a suposta aversão a negociações como as que ele entabula com o centrão.

Contra esse pano de fundo, o desembarque de Moro tornou-se um imperativo. Auxiliares do ministro já não discutem se ele sairá do governo, mas quando e como a saída ocorrerá. Em dezembro de 2018, dias antes de tomar posse, o ex-juiz afirmou: "Eu não assumiria um papel de ministro da Justiça com o risco de comprometer a minha biografia, o meu histórico." Nessa época, imaginava-se portador de uma "carta branca". Hoje, sabe que fez uma opção preferencial pela autoenganação. Com a biografia já um tanto comprometida, pode ser que Moro lance um olhar para 2022.