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Bolsonaro oscila entre dois papeis: fortão e fraquinho

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

30/05/2020 02h40

Aos pouquinhos, Jair Bolsonaro vai transformando o cercadinho do Alvorada num palanque multiuso. Nele, o presidente exercita a sua teatralidade em ritmo diário. Oscila entre dois personagens: o capitão fortão, que pronuncia ultimatos e distribui ameaças, e o Bolsonaro fraquinho, que faz pose de vítima de um sistema apodrecido que não aceitou a seu patriotismo genuíno.

Num dia, quando o Supremo encosta um inquérito duvidoso no esquema político-militante-empresarial que dá voz ao bolsonarismo nas redes sociais, o capitão fortão oferece suporte governamental a um ministro que manifestou o desejo de prender togados vagabundos, anuncia que que não admitirá mais decisões judiciais monocrática, insinua que a Polícia Federal não cumprirá ordens absurdas do Supremo e proclama, em timbre de bravata: "Acabou!"

Noutro dia, instado por apoiadores a peitar governador adepto do isolamento social, estimulado a determinar a abertura de escolas, o Bolsonaro fraquinho murcha o peitoral, pede aos súditos que se coloquem no seu lugar e pergunta, prenhe de humildade: "Passa por cima do Supremo?" É como se dissesse: "O Supremo me proibiu de agir contra a pandemia. Isso agora é coisa de governador e prefeito."

Os dois Bolsonaros têm objetivos distintos. O fortão anima a tribo das redes sociais. O fraquinho tenta convencer a sociedade que vive fora da bolha virtual de que presidente não tem nada a ver com a crise econômica que dá as caras. Bolsonaro sabe que decisões judiciais são contestadas com recursos, não com bravatas. Também não ignora que o Supremo não extinguiu sua obrigação de presidir a crise sanitária.

Para quem já se definiu como a própria Constituição, deve doer em Bolsonaro a ideia de que pode acabar desempenhando o papel de figurante num enredo confuso, em que o protagonista é a crise é o epílogo é um acordo com o centrão.

Josias de Souza