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Flávio Bolsonaro ofende até o benefício da dúvida

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/06/2020 19h33

O senador Flávio Bolsonaro vai se tornando um personagem paradoxal. A cada vitória judicial que ele conquista, fica mais parecido com um culpado. O primogênito do presidente da República revela-se capaz de tudo, menos de apresentar uma defesa consistente o bastante para enfrentar o mérito das acusações que fazem dele uma biografia em processo de decomposição.

Flávio pleiteava no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro duas coisas: foro especial e anulação do processo da rachadinha, com tudo que tem dentro dele —provas e decisões judiciais. Obteve uma vitória parcial. Conseguiu transferir a encrenca da mesa do juiz de primeira instância Flávio Itabaiana para o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio, composto por 25 desembargadores. Essa migração é um escárnio.

A defesa de Flávio Bolsonaro alegou que ele tem foro privilegiado, porque era deputado estadual quando os crimes de que é acusado aconteceram. Por dois votos a um, a terceira turma do Tribunal de Justiça deu razão aos advogados do filho do presidente. A decisão é um escárnio porque não encontra respaldo na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.

O ministro Celso de Mello, decano da Suprema Corte, acaba de enviar para a primeira instância, o processo em que Abraham Weintraub é acusado de racismo. Fez isso porque Weintraub não é mais ministro da Educação. Portanto, perdeu a chamada prerrogativa de foro. Flávio Bolsonaro não é mais deputado estadual. Portanto, deveria ser julgado na primeira instância.

A vitória foi parcial porque permanecem intactas, por enquanto, as provas reunidas no processo e as decisões do juiz Itabaiana, incluindo a prisão de Fabrício Queiroz e o mandado que faz da mulher dele, Márcia Oliveira, uma foragida. Mas os advogados de Flávio já anunciaram que irão reiterar o pedido de anulação das provas, agora perante o Órgão Especial do Tribunal. Ali, será sorteado um relator.

Nas mãos do doutor Itabaiana, um juiz que mastiga abelhas, Flávio comia o pão que o Tinhoso amassou. Aos cuidados do futuro relator do Tribunal de Justiça, o Zero Um espera receber brioches. A tenacidade com que Flávio foge das explicações já ofende até o benefício da dúvida.

Josias de Souza